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"Estado deveria apoiar risco dos empresários"

por

nhelena garrido

nrudolfo rebêlo  

O Estado não pode usar o investimento para dinamizar a economia. Qual é a alternativa?

Não podendo libertar recursos, é fundamental que o Estado tenha um papel de criador, de "facilitador" de condições aos empresários, apoiando o risco de investimento. Sou um keynesiano, mas o facto de, neste momento, o Estado não poder promover o investimento público, então a opção passa por criar condições para que os empresários possam ocupar esse espaço...

Mas como será possível?

Apostando em três ou quatro sectores de tecnologia e aí jogar forte... Não digo que seja o Estado a definir os sectores, deverão ser os empresários, mas o Estado deverá orientando os investidores para certos sectores da economia.

Mas não suspeita de que os empresários estejam à espera dos já tradicionais "programas de apoio"?

Suspeito que sim, mas o Estado não o deve fazer...

Não acha que a classe empresarial está viciada em programas de apoio ao financiamento?

Um pouco, mas o País precisa de apostas... O Governo devia também tentar atrair investidores através do capital de risco. O risco não pode estar concentrado apenas no empresário. Ideias, tecnologias devem ser protegidas. É assim em todo o mundo.

O que move os empresários a investir, que factores ou vantagens competitivas os empresários podem ter?

Existem clusters tecnológicos como as energias renováveis, a área ambiental, florestal ou mesmo a economia do mar onde há vantagens competitivas. Mas, repito, não focaria mais do que quatro ou cinco clusters onde apostava em termos industriais... depois, se fosse empresário, pressionava os governos para dar escala europeia. Trata-se de um salto de ambição apoiar alianças tecnológicas em indústrias com ambições europeias.

Casos recentes de expansão internacional, como a energia e telecomunicações no Brasil, não foram bem-sucedidos. Pensa que isso sucedeu por razões específicas desses sectores?

De algum modo, esquecemos a Europa... Mas Portugal tem a lusofonia como vantagem comparativa. Quando apostamos no Brasil, acho que seguimos uma boa estratégia. Agora, o Brasil é um mercado difícil, e as coisas não correram tão bem como esperávamos. Mas a aposta estava correcta, já que permitia dar escala, visão e competitividade. O que faltou foi aproveitar essa escala para entrar na Europa.

O Brasil seria uma plataforma, criando escala para entrar na Europa...

Importante, para sermos globais, através de parcerias em mercados que são emergentes...

Essa parte falhou...

Não foi concretizada, "não fomos globais", faltou-nos a Europa. Mas Angola e Brasil são economias em que temos de arranjar relações de "partenariado".

Não sente hoje a Portugal Telecom mais fragilizada do que estava há uns anos, em termos de capacidade para ter essa abordagem global?

Sim, o que a PT perdeu em termos relativos foi escala... A PT deixou de investir em mercados externos, portanto a sua posição relativa é menor. Faltou a tal componente na Europa.

Como antevê o futuro dos grupos na Europa?

Será uma consolidação dentro de uma concepção do tipo partner, de escala europeia, onde sobreviverão quatro ou cinco grandes players em cada sector. Como isso sucederá? As empresas fazem alianças...

Aquisições hostis...

Não me parece que surjam soluções de aquisições hostis. As empresas acabam integradas ou criando sinergias. Isso é o que acontecerá nas telecomunicações. Claramente, assiste-se à formação de dois grandes blocos, a da Orange e a da Vodafone. Deverá formar-se mais um ou dois grandes blocos neste sector.

E no sector energético?

O cenário será semelhante. Haverá grandes operadores europeus.

Não o preocupa a perda de centros de decisões nacionais?

É cada vez mais difícil distinguir onde está o capital. Tentar proteger centros de decisão nacionais, só o mercado o pode fazer ...

Através do proteccionismo, o que muitos países europeus tentam praticar...

Uma das razões que explicam o atraso europeu em relação aos EUA é a adopção de políticas proteccionistas. É terrível dizer isto, mas a protecção em cada Estado é um factor de atraso da Europa.

Ganha quem protege ou quem liberaliza?

A curto prazo, ganha quem se protege...

Em alguns sectores, o poder empresarial pode ficar nas mãos dos Estados, como é o caso da France Telecom...

Por ser sector estratégico, mas é uma solução transitória, a tendência é para o desaparecimento dessas situações.

Não o choca que a France Telecom possa tomar a PT?

Choca-me se os franceses tomarem posições e nós não conseguirmos adquirir posições em empresas francesas. Ou seja, a posição do Estado deverá ser a de abrir sectores estratégicos, mas num quadro de reciprocidade, o Estado deve também proteger as posições nacionais, até termos condições de acesso a outros mercados.


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