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Mães cada vez mais tardias

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cÉu neves  

Quase metade das crianças (46,5%) que nasceram no ano passado têm mães com mais de 30 anos. As mulheres adiam cada vez mais a maternidade, às vezes até aos 40 anos. A prova é o aumento exponencial de bebés nestas idades em relação a 2003, chegando aos 30% nas grávidas entre os 45 a 49 anos e mais 150% nas que atingiram meio século de vida.

Os números demonstram que as mulheres portuguesas estão a optar por ter as crianças mais tarde e depois de prestarem provas no campo profissional. E revelam também que o tão apregoado "relógio biológico" tem uma carga horária muito ampla, nem que para isso se tenha de recorrer à ajuda da medicina.

Ao mesmo tempo verifica-se um decréscimo de natalidade nas idades mais jovens, atingindo menos 7,8% no grupo entre os 20 e 24 anos e menos 5,4 entre os 25 e 29

O total de nascimentos em Portugal, independentemente da faixa etária das mães, não pára de cair. Neste momento estamos com os mesmos números de 1995 109 mil crianças. Tudo isto com base nos últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Antigamente, ter filhos tardios (a partir dos 40 anos) era algo criticado socialmente e que decorria, muitas vezes, da falta de preparação e de informação das mulheres, coincidindo com a fase de pré-menopausa. Nasciam então, os chamados "filhos seródios". Hoje, as gravidezes tardias são incentivadas, constituem uma opção de mulheres com capital profissional e educacional e têm o apoio da medicina, seja através de exames precoces para detectar malformações do feto, da monitorização da grávida, ou da procriação medicamente assistida, explica a socióloga Rosalina Costa, no texto "Filhos da idade, filhos da maturidade", que resulta da tese de mestrado na área da família e população.

Em 2004, passaram de quatro para dez as mulheres com 50 ou mais anos que deram à luz, e de 146 para 190 as que têm entre 45 a 49 anos. Em termos absolutos, os números ainda são pouco significativos, mas a verdade é que sobrem todos os anos, sendo estes os grupos etários que registam as evoluções positivas mais significativas. São as mulheres com mais de 30 anos que impedem que o índice de fecundidade seja ainda mais baixo do que os actuais 1,4, o número de filhos por mulher em idade fértil.

"Há um maior investimento das mulheres no mercado de trabalho, que tem a ver com o processo de modernização de Portugal", diz Maria das Dores Guerreiro, socióloga da família, para explicar porque é que os casais portugueses têm menos filhos e mais tarde. Investe-se na profissão e as políticas sociais são insuficientes para garantir uma ampla conciliação entre o trabalho e a família.

As portuguesas têm a maior taxa de actividade da Europa, na ordem dos 70%, os salários são baixos e os serviços de apoio à família são poucos e caros. Em 2004, sublinha-se um outro factor de desincentivo à natalidade a crise financeira e a instabilidade laboral. E a prova é que é no norte do País que se verifica o maior decréscimo de natalidade em números absolutos, menos duas mil crianças do que em 2003

"A fecundidade deixou de ser um processo aleatório, sujeito às leis do acaso, para se transformar num fenómeno de oportunidade calculada", sintetiza Rosalina Costa. Explicando melhor ter filhos, no século XXI, expressa uma decisão "dos procriadores, ajudados que são por processos cada vez mais científicos e, simultaneamente, eficazes, e isto parece ser tanto mais verdade quanto as protagonistas são mulheres com elevado capital escolar e profissionais, reunindo as condições para poderem empreender essa autonomia face ao social".


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