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João Figueira
Nem a fotografia do Presidente da República nem a do primeiro-ministro estão nas paredes, ao contrário do que sucede com a generalidade dos gabinetes dos presidentes de câmaras municipais do País.
O único sinal de que estamos no interior de uma sala oficial é o busto de bronze plantado no cimo de uma estante lateral. No resto, dir- -se-ia tratar-se de um gabinete de trabalho semelhante a qualquer outro, embora seja ali, naquele rectângulo de vinte e poucos metros quadrados, com boa luz natural, que Luís Azevedo desenha e prepara com êxito, desde 1996, a sua estratégia de continuidade à frente do município de Alcanena.
Primeiro em representação do Partido Socialista; desde 2001 (quando a lei passou a permitir esta possibilidade) à frente das listas dos Independentes do Concelho de Alcanena. Sempre com maioria absoluta.
"Qual o segredo das vitórias? O meu trabalho, desde 1985, aqui na câmara, o qual me foi possibilitando criar uma imagem positiva junto das pessoas", explica Luís Azevedo, de 52 anos, que leva mais tempo de autarca que de engenheiro técnico de máquinas.
Dois dias depois das eleições, que lhe deram quatro mandatos na vereação num total de sete, ainda olha para as longas folhas dos resultados para lamentar a espinha atravessada nos números das freguesias onde esperava obter vitórias mais expressivas. Apesar disso, garante que "a vitória de domingo deu-me mais gozo que o resultado esmagador de 2001". Nos dois casos teve como principal adversário o PS, de que se diz ainda militante "Nunca entreguei o cartão, não pedi a demissão e, também, nunca recebi qualquer intimação ou, sequer, fui alvo de processo disciplinar."
O seu afastamento do PS foi a resposta ao distanciamento que sentiu que se estava a preparar contra si pelo ex-governador civil e presidente da federação de Santarém, Carlos Cunha, de quem Luís Azevedo fora o braço direito na autarquia e contra quem concorreu há quatro anos, esmagando-o nas urnas com quase mais 40 por cento dos votos.
Hoje, incapaz de pronunciar o nome do seu antigo correligionário - "é o ex-governador-civil, você percebe a quem me refiro, não é?" - e afastado de qualquer directório partidário, garante que a sua força reside na "estreita ligação com as freguesias e na diversidade das pessoas que estão comigo Há gente do PS, do PSD e até da CDU". Cidadãos descontentes ou aborrecidos com os seus partidos, como sucede com Eduardo Marcelino e Artur Simões (PS) e Vasco Aparício, candidato derrotado à concelhia do PSD.
Só quando o dinheiro entra na conversa é que lamenta o papel dos partidos. "No nosso caso, temos de ser nós a pedir apoio às pessoas, embora evite os donativos das empresas que trabalham com a câmara, em especial os empreiteiros", sublinha Luís Azevedo, para quem, contas por alto, "gastámos nesta campanha entre 60 e 70 mil euros; ora, como vamos receber 52 mil da subvenção oficial, lá teremos de ir para a rua arranjar o resto", acrescenta.
Fernanda Asseiceira, cabeça de lista do PS, discorda e acusa Luís Azevedo de usar a cadeira do poder para obter apoios de alguns empresários, ao mesmo tempo que lamenta os folhetos anónimos postos a circular na última semana de campanha, nos quais se dizia que votar nela era a mesma coisa que votar Carlos Cunha. Por outro lado, frisa, "é muito complicado concorrer contra pessoas que ora se dizem socialistas, ora se assumem como independentes, de acordo com as circunstâncias".
Cláudia Coelho, candidata eleita do PSD, realça o facto de apenas ter gasto "10 mil euros" na campanha, lamentando que o seu partido não tenha, como outros, "o apoio dos lobbies empresariais da região". As duas vereadoras concordam, ainda, que os 20 anos que Luís Azevedo leva de trabalho no município são uma vantagem difícil de combater e derrotar.
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