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por
eduardo dâmaso
A atribuição do Nobel da Paz à Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) e ao seu director-geral, o egípcio Mohamed ElBaradei, é um verdadeiro sinal dos tempos. A distinção foi recebida com sentimentos contraditórios pelo mundo inteiro, gerando os protestos de ambientalistas mas também o aplauso dos que recordam a atitude da AIEA durante o processo da última guerra do Iraque.
Na verdade, parece um pouco extravagante a ideia de atribuir um Nobel da Paz a uma organização que, apesar de combater a proliferação nuclear para fins militares, tem também a missão de promover a utilização de uma energia perigosa, associada a catástrofes, como Chernobyl, e que é a mais forte imagem, metafórica ou real, associada a uma ideia de ameaça global ao planeta. A esta dupla vocação da agência devem, no entanto, somar-se argumentos políticos para defender a atribuição deste Nobel que são tão decisivos para sublinhar a racionalidade de ElBaradei e da agência durante o processo do Iraque como para, agora, não transigir no enfrentamento do Irão, país que manifestamente desenvolve um programa nuclear de natureza militar.
A distinção de ElBaradei e da AIEA não deve servir para uma discussão de barricada. Este é um Nobel possibilista e pragmático que não escolhe a margem de uma ideologia ou de um mundo contra outro. ElBaradei ascendeu à direcção da AIEA em 1997 com o apoio dos EUA e isso nunca o coibiu de se bater contra Bush na questão iraquiana. Teve sempre razão quando disse que as inspecções da ONU não tinham detectado armas de destruição maciça no Iraque.
Mas a acção de ElBaradei e da AIEA contra o Irão é também decisiva para que o processo não resvale para a lógica pura do confronto político. Só a acção das Nações Unidas, baseada na AIEA ou em diplomatas de grande credibilidade como ElBaradei, pode abrir caminho para que um dia acabe a proliferação nuclear horizontal para fins militares, protagonizada por países como o Irão e a Coreia do Norte, a que se poderiam somar mais umas quantas dezenas. Uns e outros alimentados por uma lógica reactiva que, em grande parte, nasceu quando os EUA se proclamaram em 2002 como um país de "postura nuclear", rejeitando todos os interditos e tabus sobre a matéria em nome da defesa da sua segurança interna. Aqui, já se sabe, não há inocentes. É, pois, preferível o possibilismo pacifista construído no concerto das nações, nos seus pesos e contrapesos, à bênção de uma esquadrilha de anjos-da-guarda montados em F-16 com a missão de extermínio.
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