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Aliviar a dor até à morte só para 3000

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joana rei  

Aliviar a dor até à morte só para 3000

Morrem por ano cerca de 105 mil pessoas em Portugal, das quais 63 mil precisam de cuidados paliativos, que aliviam a dor em doenças terminais. No entanto, a rede existente só permite chegar a 5% dessa população - ou seja, a três mil pessoas. Uma vez que os cuidados paliativos se dirigem não só aos doentes mas também às famílias, estima-se que quase 180 mil não tenham apoio. Para inverter a situação, o Ministério da Saúde vai criar um novo plano de cuidados que deverá estar pronto até ao final do ano.

Segundo apurou o DN, a nova legislação deverá ser aprovada até Dezembro. A secretária de Estado-adjunta e da Saúde, Carmen Pignatelli, disse ao DN que o Governo pretende "criar um regime de incentivos para o desenvolvimento de cuidados paliativos e continuados em hospitais públicos, misericórdias e instituições privadas". Das novas medidas fazem parte a criação de novas unidades de apoio domiciliário e um programa de formação para recursos humanos. Carmen Pignatelli diz mesmo que "já está quase tudo pronto", embora ainda haja algumas questões de financiamento que têm der ser tratadas com a segurança social.

Em Portugal apenas sete unidades de saúde prestam cuidados paliativos. No entanto, Isabel Neto, presidente da Associação Nacional de Cuidados Paliativos, salienta que o essencial é investir em formação de recursos humanos, e não tanto em infra-estruturas. "Camas não tratam doentes. Construir mais unidades é a parte mais fácil. É preciso investir na formação e no treino de pessoas", afirma.

Sendo a medicina uma área maioritariamente vocacionada para a cura das doenças, Isabel Neto salienta que, o trabalho nos cuidados paliativos exige mais do que só as competências técnicas. "As pessoas têm que ter capacidade de superar a adversidade e a frustração, têm que ter uma grande capacidade de trabalhar em equipa", diz.

A Faculdade de Medicina de Lisboa tem agora uma cadeira de cuidados paliativos, obrigatória no sexto ano, mas há pouca formação no país, apenas alguns cursos básicos organizados esporadicamente.

Outra dificuldade é o acesso aos fármacos essenciais ao tratamento da dor. Os mais utilizados são os opióides e, se no hospital eles estão acessíveis ao doente gratuitamente, o mesmo não se passa quando o paciente está em casa. As barreiras impostas pela legislação, e a baixa comparticipação - apenas 40% - torna-os inacessíveis não só aos doentes, como às próprias equipas de cuidados paliativos. Para Isabel Neto é preciso ainda clarificar o próprio conceito de cuidados paliativos. "É um conceito difícil que só quem vivenciou sabe o que é. Os cuidados paliativos são reais, palpáveis. As pessoas têm direito a eles, não é caridade", diz.

A mesma opinião tem a presidente do Movimento de Cidadãos pró Cuidados Paliativos (MCCP), Ana Cabral. "É uma mensagem difícil de passar. Falamos do fim da vida e isso choca. Mas é fácil perceber que, se o nosso pai ou mãe adoecerem, também ficamos doentes", explica, salientando "Não é uma coisa só de médicos. Os cidadãos têm que se envolver e exigir o direito de ter cuidados paliativos."

"O tempo deixa de ser nosso"

"Quando ouvimos o médico dizer que resta pouco tempo de vida, é como se nos puxassem o tapete." Foi o que aconteceu a José quando diagnosticaram um tumor cerebral à sua mulher que, durante 14 meses, usufruiu de cuidados paliativos. "Foram cuidados que permitiram tratar a dor, as equipas estiveram presentes todos os dias e mais do que uma vez ao dia", conta. Para além de minimizar o sofrimento da doente, tiveram um papel essencial na família. "Ninguém está preparado para a morte, para a aceitar. Primeiro sentimo-nos impotentes, e com o evoluir da doença o tempo deixa de ser nosso, somos a sentinela do doente e chega a saturação. O apoio prestado através dos paliativos dá-nos força para continuar e ao doente maior dignidade até ao fim da vida."


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