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Dor e revolta após o fogo que matou família inteira no Estoril

por

rita carvalho  

Dor e revolta apoderaram-se ontem dos habitantes do bairro do Fim do Mundo, no Estoril, que viram desaparecer uma família de seis pessoas, vítimas de um incêndio que deflagrou na barraca onde viviam. A origem do fogo que matou mãe e cinco filhos, entre os quais quatro crianças, ainda não foi explicada, mas a primeira impressão aponta para a ocorrência de um curto-circuito. A Polícia Judiciária está a investigar o caso, que já suscitou críticas à actuação dos bombeiros.

O fogo começou de madrugada, por volta das 04.30, e rapidamente consumiu a barraca onde viviam Edina Correia, 32 anos, e os cinco filhos Lizandra, 19, Jenise, 16, Carlitos, 13, Susana, 11, e Euclides, 5, uma família de origem guineense. As versões sobre o que se passou depois divergem. Testemunhas contaram que os vizinhos tentaram resgatar as crianças das chamas, mas que não foi possível arrombar a porta. As janelas, barradas com grades de ferro, terão impedido a tentativa dos vizinhos de acorrerem às vítimas. Mas, segundo apurou o DN, as crianças terão sido encontradas deitadas na cama e já sem vida, o que levanta a hipótese de terem morrido intoxicadas. Na origem poderá ter estado um curto-circuito, motivado por uma puxada de electricidade ou um aquecedor a óleo que ali estava.

Outros habitantes queixaram- -se da resposta dos bombeiros, classificando-a de lenta e ineficaz. "Não tinham água e demoraram mais de meia hora a chegar", disse uma testemunha. Versão rejeitada pelo presidente da Câmara de Cascais, António Capucho, que assegurou que a corporação do Estoril demorou apenas cinco minutos a chegar.

Ao DN, José Leite, segundo comandante da corporação do Estoril, a primeira a acorrer ao local, contou que a resposta foi imediata. "Recebemos a chamada às 05.20 e demorámos só o tempo necessário para fardar e seguir para o local, a pouco mais de um quilómetro do quartel". Mas, adiantou, "quando chegámos já a casa estava tomada pelas chamas e uma parte da estrutura tinha desabado. Por razões de segurança, não entrámos. Assumimos que já não havia nada a fazer".

José Leite afirmou que, mesmo antes de chegar ao local, foram chamados reforços de outras corporações, pois a água do carro do Estoril - um veículo de combate a incêndios urbanos - não possuía muita quantidade. "Nesse interregno ficámos sem água. Mas mesmo que ela não tivesse faltado, não teria sido possível salvar as pessoas".

Lágrimas, gritos e expressões de desespero exprimiam a dor de quem, por um lado, lamentava a tragédia e, por outro, se revoltava perante a impotência de nada poder ter feito para salvar os amigos. "Era uma família muito amada no bairro", contou ao DN Maria Gaivão, directora do ATL da Galiza, instituição que trabalha com as famílias do bairro há mais de 20 anos.

No momento em que foram retirados os corpos das cinco vítimas, centenas de pessoas encheram o vale onde se situam as mais de cem barracas que ainda não deram lugar a realojamento. Gritaram, choraram, houve até desmaios, e acompanharam o cortejo do transporte das vítimas, escoltado pela PSP, com gestos de sofrimento.

No bairro - povoado de casas de tijolo e madeira e uma imensidão de lixo e lama - estiveram técnicos da equipa de realojamento, amigos, voluntários das instituições que acompanham as famílias e dois padres. As crianças foram privadas da cena e mandadas para a escola. Ao fim do dia, uma missa reuniu amigos e conhecidos no bairro.

"Esta desgraça é uma chamada de atenção. Há muita gente sem direitos que vive em situações miseráveis. Não há um culpado concreto desta situação, somos todos nós, que convivemos com indiferença com estas diferenças económicas e sociais", lamentou Maria Gaivão.


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