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por
ricardo jorge fonseca
Seis meses depois da experiência que teve no Iraque, considera que não há justificação para os disparos das tropas americanas sobre o veículo em que seguia, após ter sido libertada, e que causou a morte de Nicola Calipari?
Não há justificação, porque não havia nenhum posto de controlo no meio da estrada, os disparos partiram de uma patrulha móvel, que não fez qualquer sinal, limitou-se a alvejar o carro. Era uma viatura civil iraquiana, e mesmo que estivessem iraquianos lá dentro não havia motivo para disparar assim. Além disso, os agentes que seguiam comigo tinham avisado os americanos. O coordenador italiano, o general Marioli, tinha-os informado da nossa presença na estrada. Assim, também não foi um problema de comunicações.
Como explica o sucedido?
Não faço a mínima ideia, ainda estou à espera que os americanos me expliquem. Até agora só os ouvi dizer que "nós estamos em guerra". Mas o facto de estarem em guerra não é motivo para alvejar qualquer coisa que se mexa no Iraque. Ainda por cima viajávamos numa zona em que não era possível andar um carro cheio de bombas aquilo era um sector controlado pelos americanos e não pela guerrilha.
Talvez o nervosismo...
Acredito que aqueles que dispararam o tenham feito devido à tensão, porque também esperavam a coluna onde seguia o embaixador Negroponte, que entretanto já tinha chegado ao seu destino meia hora antes. Acredito que tenha havido confusão, e aqueles soldados ficassem baralhados, mas houve qualquer coisa que funcionou mal.
Sei que lhe custa falar do cativeiro, mas pergunto-lhe qual a primeira coisa de que se recorda daquele mês?
No terceiro dia após ter sido capturada, lembro-me que os raptores estavam a ver televisão por satélite e eu perguntei-lhes se também podia ver. Estranhamente, disseram-me que sim e eu vi um noticiário da Euronews onde, numa das peças, o assunto era eu. Assisti a imagens de Roma, onde decorria uma manifestação e havia cartazes com o meu retrato. Também lá estavam as raparigas que foram sequestradas antes, as Simonas. Isto deu-me força, mas logo a seguir veio um comunicado de jihadistas, em que estes ameaçavam matar-me caso Berlusconi não anunciasse a retirada das tropas até final da semana. Foi talvez o episódio mais marcante.
Houve alguma conversa entre si e os raptores nesse momento?
Trocámos olhares, mas percebi claramente que podia ser assassinada.
Tenciona voltar a um teatro de guerra?
Acabo de voltar do Afeganistão. Mas aquele tiroteio aconteceu num momento extremamente emocional, em que ainda estava a tomar consciência de que fora libertada, aquele tiroteio interrompeu esse processo e tolheu-me um bocado o entusiasmo. Quando voltei a casa quis viver apenas a minha vida. Mas pretendo um dia voltar a zonas de conflito.
Em termos de segurança para os jornalistas, que diferenças encontrou face a outros cenários de guerra em que esteve presente a Argélia e a Somália?
As condições são mais duras no Iraque. Sobretudo desde o momento em que nos tornamos alvos. Os estrangeiros passaram a ser vistos como armas de guerra. Na Argélia também era perigoso, mas aqui a dimensão a outra.
Os jornalistas são "objectivos" no combate?
Sim, e também há aqui uma conjugação de factos no Iraque ninguém quer testemunhos. Os americanos apenas aceitam aqueles que vão com as suas tropas, sujeitos a regras específicas e expostos à censura. Os que andam à solta, arriscam-se a levar tiros como eu levei. Quanto à resistência, a quem deveria interessar o contacto com jornalistas, no sentido de apresentar a sua versão, também as relações são hostis e não há testemunho de nada. Isto torna difícil ter uma percepção do que se passa. Sentimos que podemos ser presos a qualquer momento, e ou alinhamos com as regras do exército, ou arranjamos escolta, ou o melhor é ficar no hotel. Para mim, andar às ordens do exército não é fazer jornalismo.
Criticou a intervenção no Iraque e imagino que mantenha essa posição. Mas vê coisas positivas que tenham acontecido ou que estejam a ser feitas?
Não, porque não acredito que este seja o modo de lidar com as coisas. Quando se eliminou Saddam e o partido Baas, o poder pode ter desaparecido dos níveis mais altos da sociedade. Mas nas ruas esse poder foi ocupado pelas milícias e pelos grupos religiosos que impõem agora as suas leis. As condições de vida são terríveis. Só há electricidade duas ou três horas por dia, há falta de água, as pessoas têm de escavar poços. Os hospitais não funcionam, não há empregos…
Acha que os jornalistas devem expressar a sua opinião sobre os factos, tentando influenciar a opinião pública?
Trabalho para um jornal político e acho que as coisas são mais honestas quando são declaradas, quando se assume uma posição.
A Giuliana assume que envia "mensagens".
Sim, mas abertamente, sem subterfúgios. Toda a gente sabe o que penso sobre esta guerra. Mas isso não me impede de verificar factos, de questionar as minhas posições. Não me impede de ser profissional.
Quem disse que o Super Bowl era só para homens?
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