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Tradição iniciada por Sidónio Pais

por

F.M.  

Os nomes Tchernychevski, Herzen ou Belinsky assustavam o czar russo antes de se ouvir falar em Lenine, Trotsky e Estaline. O conceito de populismo surgiu na Rússia, em 1830/40, através de um movimento que pretendia assumir a vontade do povo e impor uma espécie de socialismo agrário.

A fama do populismo político é, porém, sul-americana, assentando em ditaduras sustentadas pelas massas populares, sobretudo com os regimes brasileiro de Getúlio Vargas e argentino de Juan Domingos Péron (e da sua segunda mulher, a divinizada Evita).

E, no entanto, além do exemplo clássico de Mustafá Kemal, o "Ataturk" que modernizou a Turquia, a partir da década de 20, Portugal teve antes um paradigma absoluto de populismo em 1917/18 Sidónio Pais, o "presidente-rei", como lhe chamaria Pessoa.

No xadrez político da I República, em que se defrontavam os democráticos de Afonso Costa, os evolucionista de António José de Almeida e os unionistas de Brito Camacho, o professor de Matemática de Coimbra e militar germanófilo fez um golpe de Estado. Filiado no partido de Brito Camacho, teve três governantes unionistas (Moura Pinto, Aresta Chaves e Santos Viegas), até enveredar pelo autoritarismo e resolver transformar os ministros em secretários de Estado e criar a "República Nova".

Para se legitimar, convocou as eleições de 1918, em que quase toda a oposição se recusou a participar - à excepção de monárquicos, católicos e socialistas -, e foi plebiscitado de forma exemplar.

Durante a sua ditadura, vulgarizaram-se expressões como "lacraus" (os informadores da polícia política), "gatos de rabo alçado" (os guardas que faziam giro de espingarda em bandoleira e projectavam sombras nas paredes com aquela forma) e "epidemia de bexigas" (os jornais que saíam para as bancas cheios de cortes da censura).

Sidónio passeava-se num garboso corcel ou num Cadilac descapotável e enlouquecia as multidões, sobretudo as mulheres encantadas pelo seu charme, de tal forma que João Chagas desabafava "Dir-se-ia que se abriram as portas de um manicómio".

Até ser assassinado na estação do Rossio, não lhe faltariam fantásticos apoios, como sintetizou José Brandão num livro sobre o ditador populista "Ao lado de Sidónio vieram colocar-se personalidades que fariam bem as delícias de qualquer Presidente da República da actualidade. Fernando Pessoa endeusava-o, António Sérgio acreditava nele, Basílio Teles entusiasmava-se, Rocha Martins defendia-o e outros, não menos famosos, só desejavam poder servi-lo."


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