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por
Ruben
de carvalho
Pertenço a uma geração para a qual New Orleans tem um significado especial. Há o jazz, já se vê, mas há sobretudo tudo o que para nós o jazz significou a cultura, e em especial a música, como grande e vitoriosa afirmação do povo negro, protagonista e vítima da secular barbárie da escravatura; o conhecimento; do apaixonante processo político e cultural do Sul dos Estados Unidos, esse cruzamento entre a França e a Espanha, o calvinismo europeu e a religiosidade afro-caribenha, mas também a Reconstrução ou, já nos anos 60, a epopeia dos Freedom Riders.
New Orleans era isso tudo, o mardi gras, a Original Dixieland Jazz Band, os funerais, a memória, o presente, o cajun e o porto, o French Quarter, o piano de Roll Morton, o palco onde Armstrong ou Kid Ory se estrearam, os blues.
O que hoje contemplamos no delta do Mississipi não é apenas a crueldade da Natureza o que acontece na Luisiana é o retrato do falhanço de uma política, do falhanço de uma concepção do papel do Estado, do próprio funcionamento de uma sociedade.
Em New Orleans o "mercado" exerceu essa "função reguladora" que lhe atribuem. Proporcionou petróleo e lucros, desregulamentou exigências urbanísticas e responsabilidades infra- -estruturais. New Orleans é o retrato da política que George W. Bush quer ver no mundo e de que o seu embaixador Bolton na ONU é o retrato.
Os 250 quilómetros por hora dos ventos do "Katrina" arrasaram antes de mais nada a lógica capitalista dominante o problema é que as primeiras vítimas são os homens e tudo o que criam.
Mas, não duvidem até por tudo isso, os blues, esses, continuarão a cantar-se...
rubencarvalho@mail.telepac.pt
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