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por
Luís Miguel Viana
Foi de chinelos, pijama e roupão, em sua casa, sentado na poltrona em frente à televisão, que aos 74 anos Mário Soares viu em directo o congresso do PS levantar-se como uma mola no Coliseu de Lisboa quando António Guterres anunciou que o fundador e antigo secretário-geral aceitara encabeçar a lista do partido para o Parlamento Europeu. Corria Fevereiro de 1999 e, apesar do ar de manhã de reformado, o homem esparramado no sofá não se afastara nunca da vida pública. Saltitara nos últimos anos entre comissões e conferências de prestígio, mas agora ali estava, de regresso ao que nunca abandonara - a política.
Ainda não tinha deixado Belém após dez anos como Presidente da República e já Mário Soares assumia a presidência da Comissão Mundial Independente dos Oceanos; em Março de 1997 aceitou a presidência da Fundação Portugal-África e a presidência do Movimento Europeu; sobe à presidência do Comité Promotor do Contrato Mundial da Água e, em 1998, à presidência do Comité dos Sábios do Conselho da Europa. Enquanto isto - e para além de ser conselheiro de Estado -, é convidado para dezenas de academias, como a do Reino de Marrocos. Pertence a 12 fundações (para além da sua), entre as quais a Gorbachev ou a Shimon Peres. É membro do Clube de Roma, do Clube Assunción, do Grupo UNESCO para a Paz.
Com uma tal visibilidade no plano internacional, Mário Soares nunca descurou a intervenção na vida interna. Foi publicando livros, fazendo de cada lançamento um acontecimento político. Dedicou-se bastante à sua Fundação Mário Soares, que criara em 1991, bem como à Casa-Museu João Soares (em Cortes, a dois passos de Leiria, dedicada a seu pai), em ambas reunindo espólio, apoiando a edição de livros e, sobretudo, promovendo debates, colóquios e conferências para as quais convidou meio mundo da política até Cavaco Silva lá foi discursar, "apresentado" às televisões com a consabida bonomia irónica do ex-presidente.
As televisões... Mário Soares nunca subestimou a sua importância. Apresentou na SIC a série O Século do Povo, fez uma primeira série de conversas com grandes líderes mundiais, tendo convidado Henry Kissinger para a primeira. Numa segunda série falou com Tony Blair, Felipe González, Jorge Semprum... Ao mesmo tempo desdobrou-se em debates e colóquios dentro e fora do País, deu aulas em universidades, fez conferências "Tenho ganho dinheiro como nunca ganhei", confessou em 1999.
Numa reportagem feita nessa altura por José Carlos de Vasconcelos, na Visão, Mário Soares falou da possibilidade de escrever as suas memórias quando chegasse aos 80 anos. José Carlos de Vasconcelos resolve então provocá-lo "Antes disso, por este andar e com tal pedalada, ainda pode voltar a ser Presidente da República." Aí, o entrevistado pôs-se grave e disse muito sério: "Nunca se regressa ao que se fez mais ou menos bem!"
Com a candidatura ao Parlamento Europeu, Mário Soares regressa em pleno. Nessa campanha eleitoral, aliás, mete-se na política nacional ao falar do "défice democrático" na Madeira, o que lhe valeu ser chamado de "aldrabão reincidente" por Alberto João Jardim. E nos anos seguintes, no ocaso do Governo de Guterres, vem defender a federação da esquerda, elogiar o Bloco de Esquerda e sustentar que "para os socialistas ganharem eleições não é preciso fingirem que não são socialistas".
A sua viragem à esquerda jogou-se em vários palcos, como o programa "Sociedade Aberta" na TV. Esteve no Fórum Mundial, em Porto Alegre, discursando contra a globalização. Deu entrevistas contra "o neoliberalismo, que provocam grandes tensões sociais". Convocou o então secretário-geral do PS, Ferro Rodrigues, mais Guterres, mais Sócrates, a desfilarem pela Avenida da Liberdade de braço dado com o PCP e o BE contra a invasão do Iraque pelos EUA.
Tudo parecia ter terminado quando, em Dezembro último, no jantar público dos seu 80 anos, Mário Soares afirmou "De política sinceramente vos digo: basta! Tenho o direito de pensar e de fazer outras coisas." Tinha dito o mesmo em 1 de Janeiro de 1996. Não era a sério, mais uma vez.
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