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céu neves
As calculadoras gráficas, obrigatórias no ensino secundário, são também utilizadas para jogar. Até aqui, nada de surpreendente. A surpresa é que o jogo preferido dos alunos é uma espécie de bolsa da droga, com indicação do preço dos estupefacientes e os locais reais de compra em Lisboa. Uma diversão que circula há mais de sete anos, em absoluto sigilo.
A novidade deste jogo, intitulado Drug 3000, é o facto de poder jogar-se com equipamento escolar, já que a calculadora gráfica é obrigatória para os alunos do ensino secundário. Além disso, tem informação detalhada sobre os vários tipos de drogas e os bairros lisboetas - reais - onde estas podem ser adquiridas.
Vende-se droga quando os preços estão altos, compra-se quando estão baixos, como manda o bê-á--bá do mercado bolseiro. Cada estupefaciente tem um preço, sendo o mais caro a cocaína (20 mil dólares). Depois estão a heroína (oito mil), o haxixe (três mil), a erva (500), os speed (80) e o LSD-25 (40).
A droga pode ser adquirida no Bairro Alto, Casal Ventoso, Carnide, Pontinha e Chelas. O objectivo é ver quem consegue acabar o jogo com mais dinheiro e atingir a máxima pontuação possível 100 pontos. Os jogadores têm 30 viagens para o concluir, correspondendo um dia a cada viagem para adquirir a droga. As deslocações são sempre de metropolitano.
Os alunos jogam entre si e até têm uma lista com os recordes da turma. "Não é como os outros da calculadora, muito básicos. Este é simples e divertido", diz Ricardo, 16 anos. E Marco, 15, explica "É o jogo de que gosto mais, obriga a analisar o preço das coisas. Exige raciocínio."
O jogo chegou às mãos destes alunos através da irmã de um deles, estudante universitária de Medicina e residente em Lisboa. Basta um cabo para fazer as có-pias, seja calculadora ou computador. Este é um jogo antigo mas, apesar de suscitar tanto interesse, não chegou ao conhecimento de pais ou professores, como refere Fernando Gomes, vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais. Também os dirigentes da Federação Portuguesa dos Professores desconhecem que, quando os alunos estão muito ocupados com a calculadora, podem estar a "comprar" e a "vender" cocaína. "Compramos mais a cocaína e a heroína, são as mais caras. Os jogadores mais experientes só compram estas", diz o Ricardo.
É a informação que adquirem e a banalização do acto de comprar droga que podem ser nocivos. Mas, refere Paula Marques, responsável pelo departamento de prevenção do Instituto da Droga e da Toxicodependência, "este jogo é o exemplo máximo de que não se consegue proibir o acesso a este tipo de coisas". E sublinha "O que temos de fazer é capacitar os adultos para lidar com as situações de risco, para que os próprios jovens saibam dizer não. Facultar dicas de sobrevivência para não terem comportamentos que eles sabem ser perigosos."
O jogador começa com um plafond de oito mil dólares para investir em droga, quantia que fica a dever ao "padrinho", o único que concede empréstimos. Também existe um "banco", mas este só serve para fazer depósitos, como forma de evitar roubos - uma das armadilhas do jogo.
Imagina-se que o jogo corresponderá à adaptação de um original estrangeiro e que o "arquitecto" de tal iniciativa resida na Pontinha. É que esta é a zona onde se localiza o banco e a presidência do padrinho. Mas são apenas suposições, já que não se consegue descobrir a origem do jogo.
No desenrolar da acção compram-se porta-cargas - o inicial tem uma capacidade para cem cargas - e aparecem mensagens, com a linguagem que se espera de um "mafioso", sobre os preços e os esconderijos do produto. E há uma pergunta fatal "Está aqui alguma erva e cheira bem. Fuma-la?" A afirmativa implica a morte, porque um negociante nunca deve consumir o produto que vende. Às vezes são perseguidos por agentes da PJ e há que adquirir armas (Colt com laser ou Magnum 45, entre outras).
É este lado perigoso do crime que constitui um atractivo. "Fugir às regras e à polícia torna o jogo mais interessante", diz o Marco. Opinião partilhada por Emanuel, licenciado em Comunicação So-cial, que tinha o jogo quando andava na escola secundária, em Faro. Ou seja, o passatempo não se circunscreve a Lisboa. "Fez algum furor. A ideia era aproveitar as capacidades da calculadora e este foi um dos jogos com mais opções. Havia a lógica de subversão das regras, a violência. E isso atrai."
Helena Marujo, psicóloga clínica especialista em adolescentes, explica que não faz sentido proibir estes jogos, apesar de não estimularem "comportamentos saudáveis". Na ausência de dados científicos sobre o seu impacto, "temos é de estimular os alunos a falar sobre eles."
Discutir os riscos com jovens
evitar proibir
A proibição é a pior estratégia, porque é impossível ter conhecimento de tudo o que há no mercado.
discutir o impacto
Famílias e professores devem falar com os jovens sobre o que os leva a jogar este tipo de jogos e trabalhar com eles o impacto que isso pode ter nas suas vidas.
conquistar a confiança
Deve-se aproveitar o jogo para reflectir sobre o problema da droga e procurar criar uma relação de confiança com os filhos e alunos, que permita ter uma conversa saudável sobre as dependências.
dizer "não"
A melhor prevenção contra o consumo de drogas é dar às crianças e jovens as ferramentas que lhes permitam dizer "não". São eles que têm de lidar com os riscos.
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