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Só 20% dos incêndios são por fogo posto

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carlos rodrigues lima  

Apenas 20% dos 28 160 incêndios registados desde o início de 2005 têm como causa o fogo posto, apurou o DN junto da Polícia Judiciária (PJ) e do Ministério da Agricultura, do Desenvolvimen- to Rural e das Pescas. Para estas duas entidades, a negligência (embora seja considerada crime pelos efeitos que produz) está na origem da maior parte dos incêndios. Ainda assim, a PJ bateu este ano o recorde de detenções de alegados incendiários 126, sendo que só 32 foram detidos na área de Coimbra. Nos casos de fogo posto, o perfil do incendiário mantém-se desde há muito anos: homem, baixa escolaridade, residente na localidade onde ateou o fogo e excluído socialmente.

Os comportamentos negligentes (como sejam as queimadas, sardinhadas, pequenas fogueiras) continuam a ser apontados pelas autoridades como as principais causas, as quais se aliam às condições climatéricas que se têm verificado desde o início do ano tempo quente e presença de ventos fortes. Aliás, já em Março deste ano, ou seja, completamente fora da habitual "época dos fogos florestais", a Direcção-Geral dos Recursos Florestais (DGRF) registou a ocorrência de 980 fogos florestais (o critério adoptado para a classificação de incêndio florestal é se este tiver consumido uma área superior a um hectare). Uma contingência que levou, aliás, o Governo a antecipar o plano de combate aos fogos para o mês de Maio e não para Junho como estava previsto.

incendiários. O último indivíduo detido em Mangualde pela PJ de Coimbra encaixa no padrão definido ao longo dos últimos anos por vários especialistas um jovem de 24 anos, servente de pedreiro, vivia com os pais, sendo que o seu ordenado era gasto pelo pai numa tasca. Aos investigadores confessou ter ateado um fogo no do-mingo, que interrompeu a circulação rodoviária e ferroviária na zona entre Nelas e Mangualde. E disse ter ateado o fogo por estar "desiludido com a vida". Os tais "motivos fúteis" que a PJ adiantava ontem.

Além deste tipo de patologia, o consumo de álcool também surge associado ao perfil do incendiário. Ora, isto leva a que, como realçou o psiquiatra Carlos Braz Saraiva na revista Polícia e Justiça do primeiro semestre de 2004, "o estreitamento do estado de consciência, a euforia, o fascínio pelo fogo, a desinibição, as condutas impulsivas propiciam comportamentos socialmente reprováveis aos olhos dos outros, mas que para os próprios não são tidos como ilicitude ou algo de errado, por não entendimento das normas so-ciais".

Como são, normalmente, pessoas que habitam num meio rural, Carlos Braz Saraiva questiona "Já alguém disse que os presidentes das juntas de freguesia conhecem os seus débeis mentais. O problema não é saber quem eles são, o problema é saber o que se está a fazer por eles."

Num estudo realizado no Instituto Superior de Polícia Judiciária e Ciências Criminais (ISPJCC), os inspectores Ernesto Pereira e Manuel Silva concluíram "não haver diferenças entre o perfil do incendiário português e o encontrado noutros países, quer da Europa quer dos EUA". Partindo de uma amostra de 52 indivíduos condenados pelo crime de fogo posto, os dois inspectores traçaram o seguinte perfil homem, 16 aos 45 anos, normalmente não é casado, baixa escolaridade, sendo muitas vezes analfabeto, trabalha no sector primário, reside na área onde ateou o fogo, não é reincidente.

Este perfil mantém-se actual, já que é referido no Livro Branco dos Incêndios de 2003, realizado pelo então ministro da Administração Interna, Figueiredo Lopes. Em síntese, como afirmou ao DN o inspector-chefe da PJ António Carvalho (ver entrevista em ro-dapé), a motivação destes indivíduos é a "ausência de motivação" aparente. E esta, realçou o inspector, é "a mais perigosa".


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