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Com uma demissão, uma nomeação e um safari, José Sócrates deitou pela janela fora, num piscar de olhos, todo o estado de graça que tanto se esforçara por conquistar. A quantidade de asneiras que produziu em tão curto espaço de tempo é digna de Santana Lopes, e levanta as maiores dúvidas sobre a competência governativa do nosso primeiro- -ministro. Com uma agravante Santana viu o poder cair-lhe no colo sem estar à espera, e começou imediatamente a cavar a sepultura numa entrevista à SIC. Sócrates, pelo contrário, nos primeiros meses de Governo parecia bem preparado, tinha uma equipa que falava pouco, apresentou boas iniciativas, fez intervenções de qualidade na Assembleia da República. Mas, de repente, foi o descalabro - como se, algures entre a demissão de Campos e Cunha e a nomeação de Armando Vara, tivesse sido infectado por esse vírus que anda à solta pelos jardins de S. Bento e que é capaz de transformar numa aberração política a mais esforçada das almas.
Porque aqui convém sermos justos Sócrates sempre pareceu um moço capaz de compensar com o esforço a falta de brilhantismo, atapetando com suor as frinchas do talento. Só que, entretanto, desleixou-se. Optar por continuar a passear pela savana enquanto Portugal ardia foi uma enorme machadada na sua credibilidade. Não está evidentemente em causa o direito de Sócrates ir gastar o pé-de-meia para o Quénia. O problema é não ter voltado quando o País se incendiou muito mais do que era razoável. E a prova, ao contrário do que afirmou António Costa, de que sempre teria alguma coisa a fazer por cá, é o rodopio em que por aí tem andado, Portugal acima Portugal abaixo, pedindo inclusivamente ajuda internacional para pôr fim a esta tragédia. O povo, que não é parvo, percebe isso, tal como percebe que Sócrates não agiu como um líder mas como um mau funcionário público: férias sagradas e trabalho à hora certa.
João Miguel Tavares
jmtavares@dn.pt
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