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"Não há noção do estado a que isto chegou"

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j. m. o.  

"Impõe-se rapidamente parar para pensar. O novo Plano de Ordenamento do Algarve terá de determinar o que se pode e não se deve fazer, pois o actual não teve qualquer eficiência. Isto está preso por arames e parece que as pessoas não tomam consciência. Mas há-de ter um fim e pode ser triste." Este é o grito de alerta lançado pelo arquitecto paisagista Fernando Pessoa, ex-presidente do núcleo do Algarve da Liga para a Protecção da Natureza. Fernando Pessoa sugere colocar "todos os autarcas num avião a sobrevoar baixinho para verem as asneiras cometidas". É que, "cá de baixo, não se tem a noção do estado a que o Algarve chegou, nem se imagina a mancha de construção civil que vai alastrando do litoral ao interior".

O arquitecto mostra-se sobretudo preocupado com o futuro da costa vicentina, nomeadamente com a zona que vai da Ingrina até Sagres, bem como a da serra do Caldeirão, no concelho de Loulé, e o Sotavento algarvio. "Essas zonas podem ficar demasiado comprometidas, pois tudo aponta para que venham a ser geridas da mesma forma que as outras. Quanto a estas, só uma implosão poderia limpar aquilo nalguns casos", considera, numa alusão a zonas como Albufeira, Quarteira, Armação de Pêra e Praia da Rocha.

O especialista na área do ambiente e autor de várias publicações sobre o Algarve vai ao ponto de criticar "alguns técnicos" que defendem a urbanização de toda a costa do concelho de Vila do Bispo.

"Compreende-se que a câmara queira rendimentos como têm muitos outros concelhos. Mas isto não pode ser assim. A costa de Aljezur tem algumas zonas que podem ser ocupadas, mas se não houver um travão acabará também por ficar igual ao resto. O Instituto da Conservação da Natureza está completamente ineficaz, é como se não existisse. Mesmo que os responsáveis dos parques naturais queiram fazer alguma coisa, não podem porque a tutela não lhes permite. O último litoral selvagem do Sul da Europa vai-se embora", adverte.

Para Fernando Pessoa, o Algarve não tem população em crescimento que justifique o aumento da construção. Mesmo assim, aconselha que os projectos futuros sejam avaliados caso a caso. "Nalguns sítios, um edifício com três ou quatro pisos pode ser muito e noutros pode não ser nada. Uma torre até pode ser melhor do que várias casas. Tudo depende do local", diz.

Depois do litoral, o "assalto" ao interior, "já começou há muito tempo", lamenta Fernando Pessoa, referindo-se ao projecto urbanístico da Quinta da Umbria, no concelho de Loulé, que irá consumir água do aquífero Querença/Silves, a maior reserva de água subterrânea no Algarve. Este caso já levou a Liga para a Protecção da Natureza a apresentar uma queixa nas instâncias europeias devido ao "risco de contaminação daquele aquífero essencial".


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