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O novo 'assalto' do betão ao Algarve

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josé manuel oliveira  

É um novo assalto do betão ao Algarve. Há mais de cem mil apartamentos e moradias que já têm projectos aprovados e que devem ser construídos nos próximos três a cinco anos, confirmou ao DN fonte do turismo da região. Isto apesar de, neste momento, agentes do sector da construção civil garantirem que há mais de 30 mil apartamentos por vender e que os preços já começaram a baixar. Em termos de futuro, há quem defenda que este deve passar por um turismo de resorts de luxo, pois "tudo o que tem qualidade vende".

Segundo apurou o DN, as zonas mais afectadas com lotes por vender são Albufeira, Portimão, Quarteira e Armação de Pêra. A situação tem levado a uma redução sucessiva e quase diária de preços para atrair o mercado, mas as mesmas fontes referem que pouco tem adiantado. O empresário Barão Carneiro, de Portimão, contou que há seis anos venderia uma casa de quatro assoalhadas por 30 a 35 mil contos (150 a 175 mil euros), hoje está a comercializá-la por 25 ou 23 mil contos (125 a 115 mil euros). Aliás, o preço de um T1 pode cair para os 15 a 20 mil contos (75 a 100 mil euros). "Estamos a perder dinheiro. Há uma queda de sete ou oito mil contos por cada apartamento ou mais, só para conseguir vender. Mas é preferível vender ao valor de custo do que suportar dívidas à banca", disse ao DN.

Mesmo assim, a febre do betão vai continuar a atingir quase toda a região algarvia. A zona da Meia Praia, em Lagos - que até há pouco tempo era considerada por investidores, autarcas e governantes como uma das áreas preservadas - deverá ver duplicada a sua população nos próximos dez anos, tendo em conta o que está estipulado no Plano de Pormenor da região. De acordo com o presidente da Câmara de Lagos, Júlio Barroso, estão previstos pelo menos seis hotéis de quatro e cinco estrelas com quatro pisos, que deverão situar-se na área mais baixa da-quela zona, enquanto a mais alta incluirá construções com dois pisos. Mas ainda haverá lugar para habitações com características de baixa densidade, além de um centro de saúde, equipamentos sociais, espaços verdes e para o aumento do campo de golfe de Palmares.

"Claro que gostava de ver a Meia Praia numa zona verde. Mas não sou dono daquilo", admitiu ao DN o autarca. "Também não podemos cair em fundamentalismos ambientais que impeçam um de-senvolvimento adequado".

No concelho de Vila do Bispo, abrangido pelo Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, o autarca Gilberto Viegas quer resorts de baixa densidade e com alta qualidade, compatíveis com os valores naturais previstos no Plano Director Municipal, que aponta para médias de 12 a 20 habitantes por hectare, em construções de dois pisos. "Não queremos o turismo do parque de campismo, mas o do hotel de cinco estrelas", sublinha, não se mostrando interessado em mais moradias dispersas. Ao contrário do que insistem os ambientalistas, considera "ridículo" dizer-se que a zona protegida está sob grande pressão "ou que se prepara qualquer tipo de assalto".

"Tem de haver grande cuidado e até um travão ao crescimento das cidades nos concelhos do Algarve com maior densidade populacional, mas não se perspectiva que a situação esteja a desacelerar. Em contrapartida, há concelhos com brutais estrangulamentos ao ponto de contribuírem para uma desertificação crescente, como Alcoutim, Aljezur e Vila do Bispo", alertou.

A zona do Martinhal é apenas uma das apostas para aquele tipo de turismo, enquanto no empreendimento Parque da Floresta, em Budens, falta construir um hotel de cinco estrelas com 200 quartos. As estimativas apontam para três a cinco mil camas turísticas no concelho. Por outro lado, "há cinco ou seis urbanizações próximas do litoral, cujos alvarás já vêm do passado. Foi um modelo desenvolvido e aprovado na altura. Tem-se tentado alterá-los, mas há direitos adquiridos. Mesmo assim, têm sido feitas algumas diligências no sentido de requalificá-las, mas é sempre um processo complicado".

Numa altura em que os ambientalistas classificam como crime a construção de uma marina com uma urbanização na zona da Boca do Rio, no Paul de Budens, Gilberto Viegas insiste que "crime é ter a zona no estado de abandono e de destruição em que está. É um crime que não se aproveitem as condições ambientais existentes. Nada tem sido feito ao nível da conservação da natureza. Qualquer aproveitamento turístico terá de ser sujeito a estudos com os enquadramentos necessários. Não devemos dizer não por princípio".

Em Tavira estão previstas 2500 camas turísticas em áreas com essa aptidão mas poucas estão ocupadas. A câmara está à procura de investidores para o interior do concelho. "Temos três hotéis de quatro estrelas e uma pousada que vai abrir. Mas se tivéssemos meia dúzia de bons hotéis, Tavira só teria a ganhar", comentou o autarca Macário Correia.

Também os concelhos de Silves, Loulé, Castro Marim e Vila Real de Santo António vão conhecer uma expansão urbanística com empreendimentos turísticos, alguns aprovados com imposição de vários governos. "É uma descaracterização total do Algarve. Em vez de promovermos um turismo de acordo com as características existentes, tentamos copiar as Baamas ou a Escócia, com campos de golfe", acusa Fernando Pessoa, arquitecto paisagista e ex-presidente do núcleo do Algarve da Liga para a Protecção da Natureza.

casas devolutas. Mas ao mesmo tempo que se prepara um novo assalto do betão, há alguns milhares de casas devolutas e em situação de ruína. Por exemplo, só no concelho de Portimão, esse número ultrapassa o milhar. "O ano de 2006 vai ser de declaração de guerra a essa situação e, em 2007, as casas serão demolidas", garantiu ao DN Manuel da Luz, presidente da Câmara de Portimão.

Para já, o autarca aconselha os proprietários a recorrerem aos instrumentos legais em vigor para se candidatarem a financiamentos destinados à reabilitação das habitações.

Estão previstos mais de cem mil moradias e apartamentos para os próximos anos

"Dezenas de casas ilegais"

Antes de o novo Plano Regional de Ordenamento do Território do Algarve entrar em vigor, o que deverá ocorrer em 2006, o presidente da Junta Metropolitana, Macário Correia, espera que se consiga pôr cobro a um conjunto de habitações dispersas em zonas protegidas. "Basta passar na Via do Infante, olhar para as encostas e ver a quantidade de moradias em construção, que não são todas legais em termos de adequação ao espaço. São construções em reserva ecológica, que estão a ser feitas às dezenas, representando uma situação tão grave como aquelas que estão nas dunas da ria Formosa, sem aptidão legal". O problema, refere, resulta da "falta de fiscalização, que devia ser mais efectiva por parte das câmaras, serviços municipais, Guarda Nacional Republicana e outros agentes de segurança. E deixa o recado "Se forem todos mais acutilantes, talvez se possam evitar alguns crimes urbanísticos."


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