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Não acha que existe um défice anímico nos portugueses com reflexos na confiança dos agentes económicos?
Como não hão-de os portugueses exibir um "défice anímico" se nenhum caminho viável lhes é proposto para resolver os problemas com que se debatem e só vêem ameaças de as coisas se tornarem ainda piores?
Como analisa esta vaga de nomeações em cargos de índole financeira ou empresarial? É consentâneo com os já tradicionais ciclos políticos? Considera isto um facto normal no funcionamento da democracia e das instituições?
Infelizmente é normal e é, por isso, mais um dos problemas que revelam como é necessária a "aclimatação ao liberalismo"...
Em matéria salarial - pública e privada - para 2006, acha possível um aumento de rendimentos em linha com a inflação prevista?
Esta é mais uma questão desfocada. Uma economia que precisa desesperadamente de se reestruturar e de criar sectores de elevada produtividade e capacidade de inovação não pode pensar nos salários como uma variável uniforme, a evoluir de igual modo em todos os sectores da economia. O que é necessário é existirem actividades, empresas e sectores onde os aumentos de produtividade justifiquem aumentos de salários. Nas outras, onde a produtividade estagna e a competitividade se perdeu, nem os salários poderão subir nem sequer, em muitos casos, será possível manter o emprego. O caminho tem de ser o da diversificação salarial e da flexibilidade do emprego, num contexto de políticas públicas que assegurem a necessária equidade, igualdade de oportunidades e a rede de segurança social indispensável a uma transformação profunda, mas não selvagem, da economia.
Existe uma probabilidade, superior a 50%, de o crescimento económico para este ano se situar abaixo do projectado no cenário central (0,5%) do Ban- co de Portugal. Poderemos, assim, cair na recessão?
Não dou palpites sobre taxas de crescimento. O que me parece importante é o facto de a tendência para a estagnação se acentuar desde há, pelo menos, cinco anos e continuarmos sem ver saídas credíveis e estruturais para o problema.
Considera como provável uma subida das taxas de juro a médio prazo, relevante para as famílias e empresas?
Infelizmente, para nós e para a Europa, a subida das taxas de juro - que indicaria estar a economia europeia em retoma - ainda não está no horizonte próximo. No entanto, acabará por concretizar-se e o pior que pode acontecer é a subida das taxas de juro vir a coincidir com o marasmo da economia portuguesa, em contra-ciclo com a economia europeia.
Se as empresas não investem com estas taxas de juro - historicamente baixas - o que fará então o investimento crescer?
Não acredito que as taxas de juro sejam uma determinante muito importante do investimento das empresas. Como a experiência mostra - e não só a nossa - a sua influência é muito maior sobre o consumo e o investimento das famílias e será aí que o efeito da subida se fará sobretudo sentir, quando ocorrer. O que fará o investimento crescer são as oportunidades de mercado, sobretudo externo.
As exportações continuam dependentes da AutoEuropa. Não é caminho garantido para a perda de quotas de mercado ao longo dos próximo anos?
Esse facto apenas mostra que a estrutura da produção e das exportações nacionais tem de mudar.
Não exerce a política. Assim sendo, como se considera optimista ou pessimista, em relação ao futuro da economia portuguesa?
Optimista, no sentido de que, dentro da União Europeia, continuamos a ter condições ímpares de desenvolvimento. Pessimista, se tiver de admitir que nem os responsáveis portugueses nem os europeus são capazes de resolver os problemas que têm pela frente. O futuro não é um dado do destino, somos nós que o criamos. Mas pode ser negro quando apenas assenta em oportunismos e soluções de curto prazo.
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