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Blogues políticos deixam de ser motores da blogosfera nacional

por

marina almeida

miguel gaspar  

A blogosfera dá sinais de estar a enfrentar uma fase de recessão, depois de um crescimento constante desde 2003. Apesar de este ser um período de férias, a actualidade levou à perda de fôlego de alguns blogues, especialmente os políticos (o fim do Barnabé foi o episódio mais marcante) e a chegada de novos protagonistas, em projectos culturais.

O Weblog.com.pt é um dos servidores que alojam blogues portugueses. Em Abril registou um "pico" 4,29 milhões de leitores, depois de dois anos em crescendo. Em Junho, de acordo com Paulo Querido, este número caiu para os 3,1 milhões, mas este dado está longe de significar uma decadência da blogosfera "o que foi virtual foi esse pico por causa do período de eleições, agora estamos num ritmo normal", considera.

O apresentador do programa A Revolta dos Pastéis de Nata, Luís Filipe Borges, colaborador do blogue Causa Nossa, anda pela blogosfera há dois anos. Em Agosto de 2003 fundou o Desejo Casar, com "muita gente [12 pessoas] com vontade de escrever e bastante cínica em relação à política". O projecto "definia-se por oposição aos blogues mais políticos, ideológicos, que nunca achei muito importantes", contou ao DN.

"O político tem um lado ridículo parecem miúdos a medir pilas no recreio a ver quem é mais de esquerda e mais de direita, são pessoas que se levam muito a sério", diz Borges, que identifica três "momentos-chave da blogosfera: um primeiro, político, outro da ditadura do humor e o actual, cultural, com blogues essencialmente unipessoais".

'Barnabé'. Com o "fim de emissão" do Barnabé, o blogue mais comentado de sempre no Weblog.com.pt - mais de 61 mil comentários, quase o dobro do número dois desta contagem, o Afixe -, fechou-se um episódio da blogosfera lusa.

Daniel Oliveira, do extinto Barnabé, disse ao DN que "os blogues nasceram em Portugal em posições muito radicalizadas à esquerda e à di-reita, por causa da situação política da época, nomeadamente a questão do Iraque e o Governo de Durão Barroso. Com o novo Governo, essa situação mudou. É normal que estes blogues estejam a deixar de ser o motor da blogosfera".

O Barnabé nasceu "de uma determinada conjuntura Iraque, Go-verno PSD-PP" e era feito por Daniel Oliveira e cinco dos seus melhores amigos. Os novos elementos, que entraram mais tarde, "mudaram a identidade do blogue", sublinhou.

O sucesso do blogue é tanto que, mais de um mês depois da sua extrema-unção, ainda é visitado diariamente por perto de três mil cibernautas.

Pedro Mexia (Fora do Mundo) não considera "que seja imprescindível, neste momento, ler blogues políticos, ao contrário de momentos como a Guerra no Iraque, por exemplo". No entanto, não dispensa o Blogue de Esquerda e o Causa Nossa, à esquerda, o Blasfémias e o Acidental, à direita. E o Abrupto, apesar de ser um "caso diferente" - "o Pacheco mete os quadros e a Ursa Maior mas é uma continuação do que ele faz noutros meios". "O Barnabé misturava uma espécie de revista académica de esquerda com um lado de 24 Horas, que funcionava muito bem", diz. O fim do projecto não o surpreendeu, porque os blogues colectivos são sempre mais difíceis de gerir e "o confronto [entre os cronistas] é online, à vista de toda a gente, em tempo real. Não há mediação, as crises são muito expostas, há um lado de telenovela, de zanga em público".

renovação. José Mário Silva, do Blogue de Esquerda (BDE), um dos mais antigos (com dois anos) e mais lidos blogues portugueses, corrobora a ideia de que a blogosfera acompanha o "turbilhão" do País. No arranque do "fenómeno", no início de 2003, houve uma "espécie de febre", e que "todos actualizavam, todos discutiam uns com os outros". Agora há uma "maior serenidade" e uma "estabilização".

João Miranda (Blasfémias) acredita que a blogosfera está "numa espécie de idade ma-dura, em que as coisas não têm tanta notoriedade". No início "havia uma preocupação de receber quem chegava de novo, era anunciado e hoje isso já não acontece". Este blogger do Porto, que é doutorado em engenharia, investigação e biotecnologia, destaca também a profusão de blogues culturais "Houve uma explosão de blogues que fraccionou os interesses e, neste momento, dificilmente alguém conhecerá tudo, a blogosfera ficou muito grande." No entanto, este blasfemo recusa a ideia de decadência da blogosfera "Se houvesse esse risco, teria sido em 2003 ou 2004. O que há é uma renovação, com maior diversidade, nichos e ecossistemas, os blogues são mais temáticos."

Paulo Querido ri-se quando se fala em maturidade da blogosfera "Nunca esteve e nunca estará! É muito cedo, a tecnologia não pára de evoluir e enquanto não estiverem preenchidas as necessidades de comunicação das pessoas, teremos uma inovação muito grande". Para este blogger, o que há é "um certo cansaço e uma espécie de reagrupar" de forças no ciberespaço.


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