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AFrancisco Azevedo
e Silva
proliferação de fogos deixou há muito de ser um acontecimento extraordinário, fruto de condições climatéricas imprevisíveis, para se transformar num ritual macabro do Verão português. Ano após ano ouvimos as mesmas promessas.
Durante os incêndios, como quem foge entre as chamas, os políticos fazem juras de futuro trabalho preventivo. As populações são obrigadas a viver o presente. Homens e mulheres, desdobrando-se no combate aos incêndios, recorrem a tudo o que têm à mão para salvar haveres - muitas vezes os seus únicos bens -, numa luta até à exaustão, frequentemente inglória e em que alguns chegam a dar a própria vida. Pedir-lhes que cooperem mais raia o obsceno.
Na Primavera, à semelhança do que aconteceu em anos anteriores, não faltaram os avisos para condições adversas. Ou melhor, o acentuar de alertas, como é o caso do prolongado período de seca, com consequente necessidade de controlo no consumo de água.
As previsões eram graves, mas a negligência foi mais forte. A limpeza das matas foi adiada, os aceiros ficaram por fazer e muitos caminhos essenciais à defesa das serras não passavam de trilhos.
Com as primeiras chamas fora de controlo, todos clamam pelos meios, pela falta de meios.
Os responsáveis pela sua gestão e organização são invariavelmente os primeiros queixosos.
Políticos e dirigentes por eles nomeados para organismos de prevenção e combate aos fogos parecem acabados de chegar a um país sem passado.
Quase podíamos acreditar que é para eles surpreendente a hipótese de Portugal estar a arder no Verão. Isto apesar de sucessivos anúncios de contratação de meios cada vez mais sofisticados e onerosos para o combate aos incêndios.
Se a qualidade desses meios não é discutível, então a sua gestão é comprovadamente ineficaz quantas vezes ouvimos bombeiros a queixar-se de coisas tão simples como a falta de luvas ou fatos apropriados para a sua missão?
Quantos relatos já escutámos sobre a incapacidade de os bombeiros chegaram rapidamente a um foco de incêndio, em locais sem problema de acessibilidade?
É a gestão atenta e atempada de meios e de acções preventivas que faz a diferença no combate aos incêndios e que explica que países com um território muito mais vasto, e por isso de controlo mais difícil, tenham uma área ardida proporcionalmente muito inferior à nossa.
Portugal vai ficando de ano para ano mais pobre, sem que os poderes central e autárquico se dignem a transformar a prevenção e o combate aos incêndios numa prioridade nacional.
O problema não é pertença de um Governo, não é o drama de uma autarquia, é o drama de um país que se mostra incapaz de trabalhar para enfrentar a adversidade e construir o seu destino.
Após a angústia dos incêndios, de pedidos e consequentes anúncios de estado de calamidade, tudo acaba por se dissipar até voltarmos, um ano depois, ao mesmo fado.
Falta vontade política, capacidade para exigir trabalho a prazo e para responsabilizar quem prevaricou.
A repetição dos incêndios é apenas uma das faces mais visíveis deste país do faz-de-conta, em que as prioridades recaem sistematicamente em tarefas que possam dar frutos imediatos, por mais insignificantes que sejam.
É o Portugal dos anúncios de efeito fugaz, mas considerados determinantes na construção da imagem do político, do autarca ou do empresário ou até mesmo do trabalhador que vinga a usar a empresa em vez de a servir.
A dependência da "imagem" tornou-se quase doentia neste pequeno país, em que muitos apostam os seus recursos para que a "criação" de acontecimentos suplante a criatividade no trabalho.
E enquanto caem e não caem máscaras dos vendedores de ilusões, lá vamos empobrecendo.
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