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paula cardoso almeida
Foi um dia infernal para bombeiros e populações, o pior desde o início da época de incêndios. As acusações de descoordenação e falta de meios sucediam-se à medida que alguns incêndios nos concelhos de Leiria, Arouca e Amarante tomavam proporções alarmantes. As chamas cortaram estradas, ameaçaram povoações, destruíram casas e obrigaram habitantes a recorrer aos seus próprios meios para evitar o pior. À noite o ministro da Administração Interna rumava a Leiria, enquanto, no terreno, 2708 bombeiros, apoiados por 791 veículos e 21 meios aéreos, combatiam 32 incêndios em 11 dos 18 distritos do Continente.
Os planos de emergência municipais foram activados em pelo menos seis concelhos e foram também accionados os planos de emergência distrital em Aveiro e Leiria. Uma medida necessária para enfrentar aquelas que foram, de acordo com o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, as piores horas deste ano. Em média, tem-se registado diariamente o dobro e, nalguns casos, o triplo das ocorrências em relação a 2004.
"Os meios não são os necessários", lamentavam população e autarcas. Em Leiria, o distrito mais fustigado pelas chamas, foram retirados de emergência vários habitantes das localidades de Colmeias, Caranguejeira e Leão e de um lar de idosos da Raposeira.
Perante a "manifesta falta de bombeiros", dizia o presidente da Câmara de Pombal, foram os populares que, munidos de mangueiras e tractores, combateram as línguas de fogo. Duas casas arderam em Leiria e, ao princípio da noite, estavam ainda sete incêndios activos naquele distrito.
Igualmente crítica era a situação no distrito de Aveiro, onde lavravam ainda cinco fogos. No concelho de Arouca, 127 efectivos e apenas um meio aéreo faziam frente às chamas. Desde o início da manhã, consumiram, incontroláveis, duas casas, duas fábricas e mais de metade da área florestal (cerca de 15 quilómetros) daquele município. Durante a tarde, foram evacuadas três povoações. Também ali, tal como em Leiria, a actuação dos bombeiros foi alvo de críticas.
No distrito do Porto, outros cinco incêndios preocupavam as quase duas centenas de bombeiros no terreno. A situação mais crítica registava-se no concelho de Amarante. Durante o dia, quatro frentes de fogo alimentadas pelo vento e pelas temperaturas elevadas destruíram cinco casas e cercaram várias povoações. Os 60 efectivos no local acreditavam, no entanto, conseguir debelar as chamas durante a noite.
À noite, o País estava efectivamente a arder. Beja, Braga, Coimbra, Guarda, Lisboa, Santarém, Vila Real e Viseu (também com cinco fogos não circunscritos) continuavam, à semelhança do que acontecia ao final da manhã, rodeados por colunas de fumo negro.
REACÇÕES. O cenário preocupante que não surpreende o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP). "Só por desconhecimento é que poderiam ter sido feitas perspectivas optimistas para este ano", diz ao DN Duarte Caldeira. O responsável aponta o dedo à "ausência de cultura cívica" e ao facto deste problema ser "tratado pelos políticos de uma forma sazonal". E defende que os bombeiros foram os únicos que aprenderam com o "catastrófico ano de 2003". As restantes estruturas "não registaram qualquer evolução".
Acusar os bombeiros é o "caminho mais fácil", mas o problema não está no combate, defende. "Há um momento em que equipamentos e efectivos não são elásticos". Quando a prioridade é a defesa de pessoas e bens e as populações são as primeiras a pôr em causa as suas próprias habitações (ao não limpar num raio de 50 metros, tal como está estipulada na lei, a sua propriedade) é "evidente que o combate está comprometido".
António Ferreira do Amaral, presidente da Autoridade Nacional para os Incêndios Florestais, considera, no entanto, que os meios no terreno são suficientes, mas "nem sempre é possível apagar os incêndios com a rapidez necessária". Mas reconhece que a prevenção não foi a que devia ter sido. O cenário só será diferente quando "o poder autárquico se interessar, estiver sensibilizado e trabalhar para resolver esta questão".
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