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por
paula cordeiro
A Caixa Geral de Depósitos (CGD) voltou a viver momentos de instabilidade. O anúncio repentino de mudança de presidente - com a substituição de Vítor Martins por Carlos Santos Ferreira - trouxe a público uma relação de tensão existente entre o Governo socialista e a administração do banco público que, apesar de alguns indícios de falta de sintonia, não fazia prever este final.
Segundo fontes do mercado ontem contactadas pelo DN, os desentendimentos entre Vítor Martins e o Governo resultaram, em grande parte, da recusa da administração da CGD em participar nos financiamentos privados aos grandes investimentos públicos, como o futuro aeroporto da Ota e a rede de TGV. No mercado fala-se de decisões de crédito polémicas e contestadas, que no entanto não chegaram a ser conhecidas. Confrontada com estas e outras questões, a administração da Caixa remeteu-se ontem ao silêncio. Também o ministro das Finanças, Tei- xeira dos Santos, através do seu gabinete, escusou-se a comentar.
Sem grandes explicações, o ministro das Finanças justifica a sua decisão com a ausência de uma "relação de confiança" que deveria existir entre administração e o accionista. Esta justificação encontra eco no adiamento das assembleias gerais ordinárias da CGD e da Caixa Banco de Investimento, que gerou especulação no mercado sobre a intenção do Governo em substituir administradores.
As reacções mais imediatas a esta decisão do Governo dizem respeito aos custos que ela implica, numa conjuntura económica difícil e num quadro de contenção de despesa pública que, nos últimos tempos, tem colocado a CGD no centro desta polémica, com a tão falada reforma do ex-presidente da comissão executiva da Caixa, Mira Amaral.
"Esta decisão do ministro das Finanças é pouco compreensível, pois vão gastar-se alguns milhões de euros em indemnizações", referiu ao DN o Sindicato dos Trabalhadores do Grupo Caixa (STEC), João Lopes. Recorde-se que dos cinco administradores demitidos, Vítor Martins, João Freixa e Alves Monteiro deixam a Caixa, enquanto António Vila Cova e Gracinda Raposo regressam ao cargo de directores.
As Finanças vão ter de pagar indemnizações que correspondem à totalidade dos vencimentos que os três administradores iriam receber até 2008, altura em que cessam o mandato iniciado em 2004. Ninguém conseguirá avançar com os números exactos dos valores a serem pagos, mas sabe-se que, em 2004, a CGD gastou 2,7 milhões de euros em remunerações de órgãos de gestão e fiscalização, mais 500 mil euros do que no ano anterior.
João Lopes reconhece que a redução de 11 para nove administradores corresponde a uma poupança, mas tal resultará numa concentração de pelouros, o que pode- rá ser prejudicial.
Para o presidente do STEC, o principal custo a ter em conta é a "instabilidade que volta à instituição". E acrescenta "O ministro das Finanças devia explicar-se."
Mas as explicações do Governo sobre esta decisão parecem resumir-se ao comunicado da passada segunda-feira. Sabe-se que a decisão tem efeito imediato, com o novo conselho de administração a entrar em funções nos próximos dias.
Além do presidente Carlos Santos Ferreira, a CGD passa a contar só com um vice-presidente, António Maldonado Gonelha. Os seis vogais são Vítor Fernandes, José Santos Ramalho, Carlos Costa, Celeste Cardona, Norberto Rosa (que transitam da anterior administração), entrando Francisco Bandeira e Armando Vara.
A CGD tem agora uma administração onde passa a dominar os elementos afectos ao PS, dez anos após o último presidente "socialista" da instituição (Rui Vilar). O Governo decidiu manter Celeste Cardona, do PP, e Norberto Rosa, do PSD, numa relação de forças políticas que o mercado entendeu como uma resposta a críticas sobre a "partidarização" do banco público. No entanto, algumas fontes consideram que esta lógica não é benéfica para uma empresa que se insere num mercado altamente concorrencial como a banca.
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