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CArménio Matias
Presidente
da Adfer
omeço por lamentar que este investimento se confunda com outro crucial e estratégico para o País - a construção de uma nova rede ferroviária em bitola europeia e alta velocidade, misturando o trigo e o joio. Aprenda-se com a ousada metamorfose ferroviária da Espanha. É inaceitável que ministros que tutelaram os transportes depois de 1990, salvo Carmona Rodrigues, e ministros das Finanças depois de Miguel Cadilhe, comprometidos com uma estratégia errada e com vultosos esbanjamentos nos transportes, levantem agora as suas vozes contra o projecto de alta velocidade, vital a um país novo, quais velhos do Restelo.
A Ota, como localização do novo aeroporto da região de Lisboa, suscita justamente a maior contestação. Estão contra as entidades ligadas ao turismo e as que representam o sector empresarial, isto é o mercado a quem a nova infra-estrutura se destinaria. Está contra: a Associação Portuguesa de Transportadoras Aéreas (a TAP, a Portugália, etc.). Está contra a Câmara de Lisboa, cuja cidade é origem/destino da maioria dos utilizadores da Portela. Afinal que interesses serve a Ota?
Se o Governo analisar os estudos feitos nas últimas quatro décadas sobre o novo aeroporto compreenderá que o processo que conduziu à escolha da Ota é deficiente, devendo ser revisto. O estudo de 1969 e os estudos complementares de 1978 a 1982 parecem-me credíveis à luz da realidade dessa época. O estudo da ANA de 1994 é credível, nos pressupostos de comparação das localizações do Montijo A (Norte/Sul), Montijo B (Este/Oeste), Rio Frio e Ota, mas deveria ter considerado outras localizações, como o Campo de Tiro de Alcochete e ter em conta as novas acessibilidades a Lisboa, sobretudo a nova rede de alta velocidade que o Governo, em 1988, preceituou, à semelhança da Espanha. O processo de decisão desencadeado em 1997 é o mais tosco de todos, não tanto pelos trabalhos feitos pelas entidades convidadas a comparar a Ota e Rio Frio mas pela visão tacanha das escolhas possíveis no contexto da época e pelo grotesco factor que conduziu à decisão do Governo antes mesmo de concluídos os estudos. Vale a pena relembrar as conclusões do estudo de 1994. Da comparação das quatro opções consideradas, concluiu-se da análise global de um conjunto de aspectos objectivos, a melhor opção é o Montijo B e a pior a Ota; no aspecto operacional a melhor opção é o Rio Frio e a pior a Ota; na perspectiva da engenharia a melhor é Montijo B e a pior Ota; no aspecto ambiental a melhor é Rio Frio e a pior Montijo A; na perspectiva da acessibilidade a melhor é o Montijo A e B e a pior Rio Frio; no aspecto do esforço financeiro nas infra-estruturas e da própria TAP a melhor é o Montijo B e a pior Ota; na perspectiva da operação simultânea com a Portela e dos investimentos inerentes a melhor solução é o Montijo B e a pior Ota. Outras conclusões relevantes foram que é possível operar simultaneamente Montijo A e Portela como se de um único aeroporto se tratasse; a opção Montijo B permite encarar a possibilidade da operação quase imediata, para reduzidos níveis de movimentos e passageiros, da pista actual. Estas conclusões da ANA de 1994 são esmagadoras para a decisão do Governo, em 1998, que, com base no risco de colisão com aves, conduziu à precipitada escolha da Ota.
Um ilustre general da Força Aérea esclareceu-me que as bases aéreas de Beja e de Ovar são suficientes para os meios e acções actuais e que, na região de Lisboa, apenas Sintra tem funções importantes relacionadas com a Academia Militar. Disse-me ainda que a pista do Montijo poderia crescer até 6 km.
A península do Montijo, como o Campo de Tiro de Alcochete, é território plano do domínio público bem próximo do coração de Lisboa.
Mandaria o bom senso e a defesa do interesse nacional que se parasse para pensar quanto à localização do novo aeroporto realizando uma avaliação global e integrada, mormente com a futura rede de alta velocidade. Que se melhorasse a Portela, ocupando Figo Maduro. Que se colocassem no Montijo os voos low cost e charters.
No meu entendimento e no da Adfer, a ligação a Lisboa da futura rede de alta velocidade devia fazer-se, para todos os destinos, pela península do Montijo. Se essa nova rede cruzasse o novo aeroporto e articulasse com a Portela, então as regiões com estações na nova rede (incluindo Leiria) ficariam excelentemente servidas pelo novo aeroporto. O País não pode deixar falar mais alto os outros interesses!
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