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por
Vicente
jorge Silva
O cemitério dos jornais vai-se alargando enquanto os títulos que restam se parecem cada vez mais uns com os outros e triunfam as soluções de facilidade, o nivelamento por baixo e a tabloidização das opções editoriais. Ontem morreram ACapital (uma segunda morte) e O Comércio do Porto, alegadamente por falta de leitores. Mas parece quase inexplicável que um sólido grupo espanhol, La Prensa Ibérica, com uma vasta rede de jornais regionais no país vizinho, tenha gerido com tanta leviandade a sua implantação em Portugal. Não foi capaz, sequer, de aplicar aqui o modelo em que se espe- cializou com sucesso em Espanha e abandonou à sua sorte os dois títulos portugueses, oscilando entre o diletantismo administrativo e uma flutuação de conceitos editoriais contraditórios e, pelos vistos, sem sustentação no mercado.
Para fazer um jornal é preciso definir previamente que espaço ele se propõe ocupar e que público ou públicos visa atingir. Mas é fundamental sobretudo a vontade criativa e empreendedora que torna tão apaixonante a aventura jornalística e a impede de reduzir-se a uma rotina burocrática e a um feudo corpora- tivo. Ora, o que hoje falta cada vez mais na imprensa e nos media portugueses é esse investimento de genuína paixão jornalística e lúcida ousadia empresarial que está na origem dos projectos que escapam ao conformismo e à mediocridade.
As apostas na imaginação, na diferença e na qualidade são inviabilizadas por um rasteiro calculismo comercial que conduz os media a um cemitério de ilusões e frustrações profissionais. Ser-se jornalista deixou de ser motivador e é também por isso que os jornais têm tanta dificuldade em mobilizar novos leitores num mercado já tão escasso como o nosso. A morte de A Capital e O Comércio do Porto é, assim, apenas o sintoma de uma morte mais genérica e difusa que se anuncia a dos jornais como lugar de paixão.
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