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Martim silva
filipe santos costa
Luís Campos e Cunha é hoje substituído por Fernando Teixeira dos Santos no cargo de ministro das Finanças, pouco mais de quatro meses depois de ter tomado posse. A cerimónia de investidura do novo ministro ficou ontem, ao final da tarde, aprazada para acontecer já hoje ao meio-dia, no Palácio de Belém. "Motivos pessoais, familiares e cansaço" foram a explicação oficial avançada para a decisão de Campos e Cunha de bater com a porta ao Governo. Hoje, estará presente em Belém para passar o testemunho.
Embora a saída seja justificada por motivos pessoais e de saúde, Campos e Cunha abandona o Governo num momento de tensão com alguns colegas do Conselho de Ministros, nomeadamente com Manuel Pinho e Mário Lino, os dois principais responsáveis pelo Programa de Investimentos Prioritários que foi recentemente apresentado pelo primeiro-ministro. Conforme o DN noticiou, o titular das Finanças foi uma espécie de travão no processo de elaboração desse projecto, exigindo uma redução dos valores financeiros envolvidos e, mais recentemente, colocando reticências à bondade de alguns investimentos. De acordo com outras fontes contactadas pelo DN, as divergências no seio do Executivo tinham também a ver com a forma como estes grandes investimentos (entre eles, o aeroporto da Ota e o TGV) deveriam ser geridos.
Na terça-feira, Campos e Cunha disse no Parlamento que os grandes investimentos, como a OTA e o TGV, ainda teriam de ser avaliados. Mas ontem de manhã, no mesmo local, Mário Lino (Obras Públicas) afirmou que a decisão política já estava tomada (ver página 26).
Segundo o DN apurou, na sexta-feira passada, Campos e Cunha tinha pedido uma audiência ao primeiro-ministro para tratar de assuntos correntes do Governo. Audiência essa que até ontem ainda não tinha acontecido. Cansaço e desgaste foram tomando conta de Campos e Cunha, em particular nos últimos dias, depois do polémico artigo que escreveu no Público.
E a gota de água que terá feito transbordar o seu copo foi a longuíssima reunião na Comissão Parlamentar, terça-feira, em que esteve submetido aos ataques da oposição. Do encontro, de acordo com as fontes contactadas pelo DN, Campos e Cunha saiu visivelmente extenuado (tendo mesmo tomado um café com dois pacotes de açúcar durante a reunião) e com uma decisão já tomada do íntimo deixar o Governo.
Apesar da audiência que já estava prevista, Campos e Cunha insistiu com Sócrates, pedindo para ser recebido ainda ontem pelo primeiro-ministro. O encontro decorreu pouco depois das seis e meia da tarde. Quando era um quarto para as sete, já Campos e Cunha tinha comunicado a sua decisão a Sócrates. Invocando as tais razões "pessoais, familiares e cansaço".
Entretanto, no círculo próximo do gabinete do ministro das Finanças, pelas cinco da tarde já era conhecida a decisão de Campos e Cunha.
Fontes do gabinete do primeiro-ministro garantiram ao DN que não foi Sócrates quem abriu a porta de saída do Governo a Campos e Cunha. Contudo,o primeiro-ministro anuiu às razões evocadas pelo titular da pasta das Finanças e ainda antes de se deslocar ao Palácio de Belém, onde chegou depois das sete e meia da tarde, para comunicar a exoneração, telefonou pessoalmente a Teixeira dos Santos (que já tinha sido dado como ministeriável aquando da formação do Executivo), convidando-o com o mesmo estatuto de ministro de Estado e das Finanças.
Assim, quando se deslocou a Belém, Sócrates já levava o nome do substituto de Campos e Cunha, até ao momento presidente da CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários).
Campos e Cunha, para além de ter entrado, dentro do Governo, num braço-de-ferro com os ministros da Economia e das Obras Públicas (ambos muito influentes junto do primeiro-ministro), conseguiu virar contra si a máquina do PS, pela forma como pré-anunciou novos sacrifícios, a apenas três meses das eleições autárquicas.
A falta de "sentido político" do ministro já há algum tempo que era criticada entre os socialistas.
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