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"Não seria estranho se saísse do Governo para ser candidato"

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DN-Rui Coutinho

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lumena raposo  

Num hotel de Lisboa, ao fim da manhã do passado domingo, Diogo Freitas do Amaral deu ao DN a sua primeira grande entrevista na qualidade de ministro de Estado, falando mais de política nacional do que de política externa. Mas foram os Negócios Estrangeiros que "emolduraram" a conversa de pouco menos de uma hora, que começou atrasada porque o ministro estava reunido com o seu homólogo de Cabo Verde e acabou pressionada pelo tempo, pois Freitas tinha que apanhar um avião daí a pouco.

Ao aceitar o convite para fazer parte do Governo de José Sócrates colocou definitivamente de parte a hipótese de poder ser candidato às próximas eleições presidenciais?

Eu acho que uma coisa não tem a ver com a outra. E que, portanto, o facto de ter aceite o convite para integrar o Governo não me impede a mim, como não impede nenhum outro membro do Governo, de eventualmente ser candidato a esse ou outros cargos electivos. Agora, não lhe posso adiantar mais nada sobre a questão presidencial, porque acho que não devo ser o único cidadão português a falar antes daqueles que se sabe que estão pessoalmente muito interessados em ser candidatos presidenciais. Quando esses ficam calados, acho que os outros têm o direito de também continuar calados.

Tem consciência que com essa resposta abre caminho a todas as especulações, nomeadamente a de poder daqui a um mês ou dois deixar o Governo para ser candidato presidencial.

Não abro nenhum caminho a nenhuma especulação, estou muito bem onde estou, estou a fazer uma coisa que gosto muito. Desde a última eleição presidencial, que foi a da reeleição de Jorge Sampaio, que eu decidi e tornei público que não faria nada para uma candidatura presidencial. Não fiz diligências, não fiz iniciativas, não publiquei autobiografias, não convoquei jornalistas para conversar sobre o assunto, não fiz contactos com independentes, não me reuni com antigos governadores civis, não fiz rigorosamente nada. Portanto, salvo o devido respeito, parece-me que é excesso de especulação estar sempre a pensar que eu tenho esse objectivo escondido, quando a verdade é que eu não faço rigorosamente nada para atingir o tal objectivo. Há outros que o fazem, mas eu não faço e isso quer dizer que não estou empenhado na corrida às presidenciais.

Mas não põe liminarmente de parte essa hipótese...

Never say never. É um princípio fundamental da vida. Eu sei lá o que é que me vai acontecer daqui a seis meses... Posso estar morto, posso estar doente, posso estar vivo e no Governo, posso ser chamado para um cargo internacional, posso ter de ir fazer uma missão extraordinária à China, eu sei lá... Não faço a menor ideia.

Mas não seria estranho que poucos meses depois de tomar posse como ministro deixasse o Governo para se candidatar à Presidência da República?

Estranho, não acho que fosse. Seria com certeza pouco habitual.

O que sente quando vê responsáveis do PS, como João Soares, a falar do seu nome como um bom candidato para disputar as presidenciais com Cavaco Silva?

Por um lado, sinto-me naturalmente lisonjeado, porque isso significa uma coisa que eu acho positiva que um centrista tenha granjeado significativas formas de respeito em áreas onde há 10 ou 20 anos atrás as não tinha. Isso é importante e útil, até para as funções que estou actualmente a desempenhar. Mas não tiro daí mais nenhuma consequência. Faço em cada momento aquilo que considero ser mais útil ao País e, neste momento, aquilo que considero ser mais útil ao País é ser ministro dos Negócios Estrangeiros deste governo.

Algumas vozes do PS, como Ferro Rodrigues e João Cravinho, consideram que a eventual eleição de Cavaco Silva para a Presidência da República pode colocar em risco a estabilidade política e a estabilidade desta legislatura. Concorda?

Sim. Eu acho que esse perigo, como perigo potencial, existe.

Porquê?

Porque se trata de uma pessoa de uma área política muito diferente, que faz as suas declarações públicas sempre em função dos pontos de vista da área política em que se situa, sem qualquer abrangência relativamente ao resto da sociedade portuguesa, e portanto é natural que não fosse propriamente um amigo do Governo PS.

Há outra coisa, já agora, que me surpreende muito. É que estamos a cinco meses das eleições presidenciais, não há nenhum candidato assumido, é a primeira vez que isso sucede desde 1976, quando as coisas se passaram um pouco assim, mas estávamos no princípio da nossa democracia. Trinta anos depois, voltamos a estar assim. Se isso revela falta de interesse pelo cargo, é mau para o sistema político. Se revela excesso de táctica, é mau para a democracia, porque a democracia exige que uma eleição presidencial seja precedida de um amplo debate nacional, e não dum prolongado silêncio, destinado a criar as condições, não para uma eleição democrática e pluralista, mas para um plebiscito unanimista. Sob essa dupla perspectiva, eu acho que a situação que estamos a viver é negativa.

Mas o próprio PS embarcou nesse tacticismo, porque está a deixar todo o terreno para o professor Cavaco.

Não estou a criticar ninguém, não estou a fazer apenas uma reflexão no plano dos princípios do princípio democrático, por um lado, e daquilo que deve ser um grande debate nacional que preceda uma eleição democrática em que os problemas possam ser discutidos, clarificados, as posições definidas, em vez de se passar apenas um cheque em branco a um determinado candidato a salvador da pátria. Eu isso confesso que não me parece compatível com o regime democrático.

Considera que era importante que, o mais depressa possível, houvesse um contraditório a esse único proto-candidato?

É exactamente essa a fórmula. Com o que eu estava a dizer eu não queria significar que fosse importante que o mais depressa possível houvesse candidatos, acho é que o mais depressa possível tem que haver contraditório, tem que haver debate, tem que haver tomadas de posição, discussão pública na comunicação social e noutros forae, para que os portugueses comecem a ficar esclarecidos e não tenham que se render à ideia de que vão votar numa inevitabilidade. Em democracia não há inevitabilidades, há escolhas, e neste momento os portugueses ainda não foram confrontados com possibilidades de escolha.

Manuel Alegre poderia protagonizar uma candidatura de combate a este estado de coisas?

Certamente que sim, mas eu não gostaria de começar agora aqui a enunciar os dez, ou quinze, ou vinte, ou trinta, ou cinquenta nomes que há em Portugal que têm mérito para serem presidentes da República. Felizmente, temos muitos.

Não lhe perguntamos sobre 10 nem 20 nomes, mas apenas sobre um se Manuel Alegre fosse candidato, teria o seu voto?

Como sabe, em democracia o voto é secreto.


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