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"Se não fosse candidata, teria feito tudo igual"

por

NUNO AZINHEIRA  

Porque decidiu fazer um documentário sobre o arrastão e uma entrevista ao comandante da PSP de Lisboa?

Quando se deram os incidentes em Carcavelos, verificámos que se estava a levantar um clima de racismo e entendemos que era necessária, por um lado, uma reflexão sobre o caso e, por outro, fazer uma defesa dos direitos das minorias étnicas residentes em Portugal.

Foi apenas um acto de cidadania?

Sim, claro. Porque achámos que ali havia qualquer coisa mal contada. Inclusivamente, pareceu-nos que o comandante Oliveira Pereira, nos dias que se seguiram aos incidentes, já estava a diminuir a dimensão dos acontecimentos e ninguém na imprensa ligou ao assunto.

Porquê?

Porque, apesar dos relatos contraditórios, ninguém quis investigar. A pressa e a concorrência criam um clima de imprensa de pacote. Investigam em pacote e tiram conclusões em pacote. Há que parar para pensar e os jornalistas não fizeram isso.

Falta sentido crítico ao jornalismo?

Claro que falta. Há muito tempo que falta. Eu não critico os jornalistas que estão no terreno. Faltam é editores com experiência e sangue frio, que pensem. E foi por isso que achámos que podíamos e devíamos fazer um documentário para desmontar toda essa situação.

Depois do documentário veio a entrevista ao comandante da PSP de Lisboa.

Foi uma entrevista de grande urbanidade e muita coragem. É preciso que isto se diga num país onde é tão raro reconhecer os erros, ele merece ser prezado, reconheceu que tinha havido um excesso da polícia e reafirmou-nos tudo aquilo que tinha tentado explicar nos dias seguintes aos incidentes.

Mas fez a entrevista a que título? Como jornalista?

Sim, claro. Eu sou jornalista. Estou no desemprego, mas não deixei de ser jornalista.

Em declarações ao Expresso deste sábado, Oliveira Pereira diz-se indignado com o "inqualificável aproveitamento político" das suas declarações, "prestadas a alguém que pensava ser uma jornalista com ética"...

Pois, fico triste. Quase aos 58 anos, depois de ter sido presidente do Sindicato dos Jornalistas, ser primeira página do Expresso não me deixa feliz. Nunca tinham colocado em causa a minha ética profissional.

Explicou ao comandante Oliveira Pereira os objectivos do seu trabalho?

Claro que sim. Não percebo como é que ele diz que pensou que a entrevista era para um estudo. Ele perguntou-me se ia para alguma televisão e eu disse-lhe que não, que ia ser apresentado publicamente e, depois, provavelmente seria colocado num site na Internet.

E quanto às críticas de aproveitamento político que lhe fazem, pelo facto de ser candidata do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal da Amadora?

Mas qual aproveitamento político? É mentira que os documentários estejam no site do Bloco. O que há lá, e há desde o primeiro documentário, a 30 de Junho, é uma remissão para o site "Era Uma Vez um Arrastão", onde colocámos esses conteúdos.

Foi a Diana que ligou para o Expresso a dar a informação da entrevista?

Quando saímos do encontro com o comandante, pensámos que tínhamos ali uma grande entrevista. E ligámos para vários jornais, para dizer que a íamos colocar online. O Expresso foi um deles.

E trouxe a história na primeira página...

E só por isso é que voltou a ser notícia. E é falso que a entrevista tenha sido colocada no site do Bloco. Isso sim, é manipulação política. Há uma espécie de loucura da classe jornalística, sempre que um dos seus entra num combate político.

Porquê?

Não sei, é intrínseco à classe. Ora, o que acontece é que não é a primeira vez que eu me meto em política. Passei a minha vida em comissões de trabalhadores, fui presidente do Sindicato dos Jornalistas, estive presa com 22 anos. Sempre estive do lado da cidadania política.

É diferente de um combate político, como candidata a uma autarquia...

E qual é o mal? Parece que estar ligada à política é uma peste. Parece que fazer política é um acto feio, como a pedofilia.

Mas é inegável que lhe trouxe notoriedade pública...

Notoriedade, sim, mas não foi boa. Nem rende votos. Todos nós sabemos que os imigrantes e os de segunda geração, que não têm nacionalidade portuguesa, não votam. Portanto, não estou a garantir mais votos. É um pensamento mesquinho. Nunca variei, sempre assumi as minhas opções políticas.

Se não fosse candidata do Bloco de Esquerda à Câmara da Amadora teria feito à mesma estas reportagens?

Claro que sim. Não tem nada a ver. Aborrece-me, sinceramente, que passem essas coisas pela cabeça das pessoas.

Mas não se livra, pelo menos, de haver quem pense que é falta de ética...

Não vejo porquê. Estou desempregada. Eu não estou no exercício da profissão, estou no exercício do desemprego. Pouco ético era se eu estivesse a fazer política na RTP, acompanhar uma acção do PSD e, ao mesmo tempo, candidatar-me pelo Bloco de Esquerda.

E a campanha eleitoral?

Ainda não começou. E só vou anunciar a candidatura em breve. Tenho toda a liberdade de ser candidata.

Vai entregar a carteira profissional de jornalista, suspendendo assim a sua actividade profissional?

Enquanto candidata, não tenho de entregar a carteira. Apenas não posso fazer coisas incompatíveis. E por lei só terei de entregar a carteira profissional se for eleita para a vereação da autarquia.

Portanto, não vai suspender a actividade a partir do momento em que assumir a candidatura?

Ainda estou a pensar. Não sou obrigada, mas perante o mal-estar que isto causa, admito que sim.


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