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Ana marques gastão
O amor é visto, segundo os casos, como inclinação, aspiração, afecto, paixão, possessão ou apropriação, fenómeno de atenção, desejo de um bem. A noção adquire significado central com Platão, definindo-a o filósofo enquanto actividade dialéctica que incita o homem à contemplação da Ideia. As descrições e elogios a este sentimento em O Banquete - a que deve associar-sese o conteúdo do Fedro - não podem deixar de articular-se num jogo de espelhos com In Vino Veritas, de Kierkegaard. Este livro acaba de ser publicado pela Antígona numa bela edição traduzida, pela primeira vez em Portugal, directamente do dinamarquês, por José Miranda Justo, também autor do prefácio. Circulava, até agora, entre nós, a versão do francês de Álvaro Ribeiro (1953) para a Guimarães, várias vezes reeditada, num português de qualidade duvidosa.
O diálogo, escrito em meados do século XIX por um pensador, não do irracional ou do arbitrário subjectivo, mas por um poeta do extraordinário e do absurdo, profundo dissecador da condição humana, acontece entre cinco companheiros (O Jovem, Constantin Constantius,Victor Eremita, Johannes o Sedutor e o Modista), que se reúnem, fumam e bebem o generoso vinho na "feliz convergência da disposição dos presentes e das circunstâncias envolventes do banquete, aquela consonância delicada, etérea, aquela música interior que não pode antecipadamente pedir-se a um músico profissional". O repasto realiza-se como um espectáculo cómico sem a presença de mulheres, apesar de estas serem, com o amor, o centro da reflexão que une os interlocutores, porque logo que estas estão presentes, "comer e beber reduzem-se a uma insignificância". Não será por acaso que este texto ficará nos anais da misoginia...
Fala assim Constantin "A mulher é só correctamente captada sob a categoria do chiste. Ao homem compete ser absoluto, agir de modo absoluto, exprimir o absoluto; a mulher encontra-se no domínio do relacional (...). Entre estes seres diversos não pode acontecer verdadeira reciprocidade. Esta desproporção constitui precisamente o chiste; e foi com a mulher que o chiste veio ao mundo." Kierkegaard escreve este texto, como se depreende em muitas das vozes, na sequência da separação dilacerante de Régine Olsen. "Ela escolheu a vida; eu escolhi a dor", explicaria o autor de O Diário de um Sedutor.
Decidido a entregar-se ao culto do Absoluto, vocação que entendia inconciliável com o casamento (como Abelardo), e consciente da inexplicabilidade do amor, diria "Quem combate pela existência suprema deve privar-se das alegrias supremas da existência." Kierkegaard vivia a paixão enquanto desejo e recordação, considerando-a uma arte de reflexão, " magia de trazer a si o passado". Sobre essa matéria, o escritor, que se ocultou em pseudónimos, disserta em In Vino Veritas, obra única da literatura filosófica do séc. XIX, situada no primeiro dos três "estádios no caminho da vida" o estético.
O chiste, não categoria estética, mas categoria ética "não inteiramente desabrochada", aplicado à mulher, ao amor e à diferença sexual, implica desarmonia, desfuncionamento. Talvez por isso, Kierkegaard sugira novas vozes para navegar, como os antigos, entre trágicos, cépticos, cínicos e dogmáticos nesta dramaturgia discursiva por onde passam o amor ao bom ou ao belo, a eternidade do sentimento ou a sua vivência enquanto experiência intelectual, a idealidade ou a entrega a Deus, o inexplicado desejo ou o matrimónio, a fidelidade ou a traição.
A permanência estética acompanha o espírito de Kierkegaard e a sua obra não apenas no primeiro estádio, mas também no da ética e no da religião, na eternidade da sua noite e melancolia, na dialéctica entre vida e arte, no mito de D. Juan e do sedutor, na atracção e rejeição da feminilidade, no pensamento ou na virtuosidade poética. Relê-lo não pode fazer esquecer o homem de secreta interioridade que repudiou Hegel por Job.
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