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Os media têm sido injustos com a acção modernizadora do Governo. Em particular no que se refere à reforma do calendário. Pelas minhas contas, já é a terceira vez que se assinala a passagem dos primeiros cem dias da governação. Como diria o outro, longos dias têm cem dias. Uma autêntica liberalização do calendário.
O calendário é a chave para interpretar a entrevista de José Sócrates à SIC. Em vésperas de Orçamento Rectificativo, o plano de investimentos do Executivo visava recentrar o debate político, perspectivando-o em termos de futuro. Isto apesar de a Ota e o TGV mais do que soarem a déjà vu.
A entrevista era um teste decisivo que o primeiro-ministro superou com distinção. Esteve inseguro em alguns momentos, nomeadamente aqueles em que interpelava directamente os entrevistadores. Não é uma novidade que José Sócrates sabe de facto comunicar em televisão e esteve bem a todos os níveis. Sobretudo ele sabia que estava a falar para os eleitores. E que tinha de emendar a mão por causa do aumento do IVA, para repor a credibilidade perdida. O carisma pessoal e a capacidade de comunicação do primeiro-ministro safaram o governo numa curva escorregadia.
perguntas. Ricardo Costa e José Gomes Ferreira tiveram uma prestação excelente e conduziram muito bem a entrevista. Confrontaram Sócrates com todas as questões incómodas. O primeiro-ministro conseguiu, quase sempre, aguentar o balanço, mas não encontrou um terreno fácil. A forma frontal como respondeu ajudou-o, mostrando uma assertividade benéfica em termos de imagem pública.
Esse foi o mérito jornalístico mais importante dos entrevistadores. Provando-se ainda, pelo caminho, como o modelo de dois a três jornalistas é adequado para entrevistas de fundo. Mas houve outro aspecto relevante. O esforço para não deixar de lado qualquer tema relevante implicava conseguir fazer todas as perguntas nos cerca de 51 minutos da entrevista ao Jornal da Noite. Ricardo Costa e José Gomes Ferreira confrontaram José Sócrates com 36 questões, das reformas dos ministros, ao aborto, passando pelo défice ou pelas Scut. Isso dá uma média de 1,4 minutos por resposta ou seja, isso permitiu um ritmo muito bom em termos televisivos. O entrevistado, de qualquer modo, ajudou, a este nível. Os temas económicos dominaram: apenas um sexto das perguntas, todas na parte final, versou temas políticos.
O País estaria melhor se fosse igual ao discurso de Sócrates... Este funcionou, criando uma realidade alternativa à da crise. Mas o mundo não é só o discurso sobre o mundo.
A capacidade de comunicação de José Sócrates é decisiva para este Governo
Miguel Gaspar
e-mail
miguel.gaspar@dn.pt
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