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As fontes anónimas são frequentes no jornalismo em Portugal. O DN não é excepção. Eis exemplos de peças recentes em que as fontes não são claramente reveladas "O DN soube de fonte segura", "fonte oficial disse ao DN", "um responsável do Largo do Rato (!)" - mais à frente identificado como "este dirigente socialista"-, a "comerciante que opta pelo anonimato". As razões para se manter confidencialidade quase nunca são explicadas aos leitores. Nalguns casos, o tom, o tema ou o tempo da peça deixam adivinhar as razões do anonimato. Terá que se reconhecer que, por vezes, a informação só poderá ser obtida se a fonte não vier a ser exposta publicamente. Neste aspecto, o recurso às fontes anónimas pode legitimar-se no direito à informação. No entanto, só se pode manter a justificação do procedimento se este for de uma necessidade não só inquestionável mas também excepcional. Numa anterior crónica chamei a atenção para uma posição de Daniel Ockrent, ex- -provedor do The New York Times, sobre este assunto. Relembro o que citei "Da cultura da redacção (...) deveria fazer parte um pequeno objecto de decoração de parede. Uma caixa com uma tampa de vidro na qual existiria um certificado onde estaria escrito 'Autorização para citar fontes anónimas.' Um pequeno martelo estaria pendurado da caixa e haveria uma inscrição 'Quebrar o vidro em caso de emergência.' E,acrescenta, tal emergência deveria existir em função dos leitores e não do jornal."
No dia 8 de Junho, o DN inseriu três peças de Armando Rafael, grande repórter do DN, sobre o Sporting. Uma das peças era qualificada como tese e, em grande parte, explicitava o pensamento de Dias da Cunha, presidente da SAD do clube; outra era a antítese, dando voz a críticas à actual, sendo a última a síntese. Na primeira peça compreendia-se que era o presidente do clube que "falava" mais do que uma vez. Mas na peça Gestão do futebol leonino justifica todas as críticas os discursos directos foram atribuídos a "outros dirigentes" ou "antigos dirigentes", a "várias fontes consultadas pelo DN", à "maioria das fontes consultadas pelo DN" ou a bons conhecedores do "balneário do clube". Não se pode duvidar que as fontes são pertinentes e informadas, mas anónimas. Armando Rafael, a quem dirigi um pedido de esclarecimento, respondeu historiando esta sua primeira incursão no terreno desportivo. A origem da peça esteve no seu desejo de compreender o que estava a acontecer dentro do clube na sequência de um debate televisivo a que assistiu. "(...) 5. Havia, contudo, um problema ninguém queria dar a cara. (...) 6. Tendo cruzado várias 'estórias' e factos, decidi escrever, tendo a nítida sensação de que só tinha tido acesso a algumas dessas 'estórias' e alguns desses factos por não pertencer ao 'meio desportivo'. O que, do meu ponto de vista, era uma vantagem para o DN e para os seus leitores. (...) 7. Assim sendo, colocavam-se várias hipóteses: contar tudo, assumindo eu próprio essas 'estórias'; identificar algumas fontes, situando as suas funções, mas sem mencionar os nomes; ou optar por uma versão mista." Depois de afirmar que optou por uma versão mista, Armando Rafael conclui "10. Se reparar, esta é uma 'técnica' que é muito usada nas páginas de Política dos jornais. Em Portugale na generalidade dos países europeus. Foi o que fiz, causando, eventualmente, alguma estranheza a quem não está habituado a tal método nas páginas de Desporto."
Em síntese havia várias soluções que são explicitadas, excepto uma: a de o jornalista se decidir pela não cobertura dado o anonimato em que algumas das fontes se queriam manifestamente refugiar. Por outro lado, a alusão ao hábito europeu e às páginas de Política dos jornais pode e deve ser interrogada. Sebastian Serrano, defensor do leitor do El País, escreveu recentemente uma crónica sobre fontes confidenciais. Um dos jornalistas do El País dá um exemplo preciso de manutenção justificada do anonimato uma fotografia da guerra do Iraque e comprovativa da chegada de aviões americanos à base de Moron. Outro jornalista, Soledad Gallego- -Diaz, distingue entre fontes confidenciais que contribuem com um dado verificável e as que exprimem apenas juízos de valor e opiniões. "O melhor será renunciar a este tipo de opinião e análise e publicar apenas o que esteja sustentado pela identidade do seu autor." E reconhece que "na prática isso suporia eliminar quase completamente a informação sobre o que se passa dentro dos partidos ou da grande maioria das instituições e empresas", pois muita dessa informação se relaciona mais com diferenças de juízos de valor e de opiniões do que com factos concretos. Tudo isto mostra que este é um assunto sobre o qual não existe solução única, mesmo na Europa. O Livro de Estilo do DN diz que "as fontes são sempre identificadas com o nome e função de quem presta as declarações." E na entrada anonimato diz-se "Todas as pessoas e organizações citadas em notícias e reportagens do DN são identificadas, excepto quando se trate de proteger a sua intimidade e bom nome."
Vivemos numa época em que os leitores têm eles próprios que ajuizar sobre a credibilidade das fontes e da informação apresentada. Como provedor, devo sublinhar tudo o que favoreça a capacitação cívica dos leitores. Mesmo que os bons exemplos tenham que se ir buscar além-Atlântico ou aquém-Pirenéus. A complexidade do tema, a frequência das fontes anónimas, uma notícia de ontem sobre a Time, o recente caso Garganta Funda e até alguns trabalhos académicos sobre fontes anónimas são razões suficientes para a ele voltar proximamente.
As razões para se manter confidenciali-dade quase nunca são explicadas aos leitores
Provedor dos leitores
José Carlos
Abrantes
e-mail provedor2004@dn.pt
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