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Os blogues são um imenso mundo novo. Ilustram exemplarmente a evolução rapidíssima daNet. Em 2000 fiz uma investigação sobre a relação dos jovens com a Internet. No seu decurso ninguém se referiu a blogues, pois estes só começaram a expandir-se depois do 11 de Setembro. Na terça-feira passada, 29 de Março, o DN dedicou o seu tema ao novo mundo dos blogues pela escrita dos jornalistas Diogo de Sousa e Filipe Morais. Nele estão identificados 37 mil blogues activos e a média diária de criação é avaliada em 76 por dia, no Sapo. É um fenómeno impressionante. Não se pode deixar de saudar uma tecnologia que permite, sem tintas nem stencil, sem máquinas de escrever nem papel químico, dar voz aos que a não tinham. Com a particularidade de cada um decidir sobre os assuntos e sobre as formas como os aborda. Com excessos? Onde não os há? Os excessos podem esconder o essencial os blogues são locais de expressão pública diversa e com dimensões novas. Basta ver, por exemplo, como os adolescentes têm aproveitado para criar espaços de afirmação e de descoberta de si, de partilha com os outros, de manifestação de uma vontade de pertença à cultura do seu grupo de pertença (ver, a este propósito, entrevista a Olivier Tredan, investigador em ciências sociais, no Le Monde, 24 de Março de 2005). A expressão tem importância evidente no mundo do jornalismo. Basta lembrar o recente livro de Rita Figueiras sobre os comentadores (1). O seu trabalho incidiu sobre as colunas de opinião dos jornais A Capital, Diário de Notícias e Público e sobre os semanários Expresso, O Independente e Semanário. A autora considera que no período estudado, entre 1980 a 1999, o perfil dos opinion makers"manteve-se e (...) muitas das individualidades que assumem o papel de comentadores autorizados também permaneceram ao longo dos anos no espaço público". Ora, os blogues permitiram que opiniões não autenticadas nos media tradicionais tenham encontrado um espaço expressivo, pese embora a sua audiência restrita. Alguns comentadores presentes nos media tradicionais viraram-se para os blogues, deixando, também aí, a marca do seu pensamento. Para além deste "reequilíbrio", no terreno da opinião há reflexões imprescindíveis a fazer no campo jornalístico. Discutir se os blogues são ou não jornalismo pode ser uma discussão interessante e meritória. Porém a resposta é obvia há uns que são, outros que não. Mas poderá ser mais relevante reflectir sobre o que podem os jornalistas aprender com osblogues? Esta pergunta é de Steve Ounting na página do Poynter Institute (http//www. poynter.org/). Resposta? Nada dirão uns. Muito dirão outros. Vejamos alguns desses desafios para os jornalistas na perspectiva daquele autor.
1. As fontes e os modos de acesso à informação seriam mais transparentes. Há uma tendência neste sentido, segundo Ounting, embora cada bloguista tenha o seu método de trabalhar. Os blogues, em geral, informam os leitores de como e onde foram buscar a informação. Esse é um elemento decisivo para que o leitor possa avaliar, por si mesmo, a informação que recebe. Sabemos como a citação de fontes anónimas, de forma não justificada, ensombra parte do trabalho jornalístico, e como existe uma pressão constante, nomeadamente nos livros de estilo, para um abandono desta prática.
2. O ciclo noticioso tornou-se mais rápido. Ounting lembra como a estória de Mónica Levinsky e Clinton se iniciou. O assunto estava a ser investigado pela Newsweek, mas não disponível ainda ao público. E foi Matt Drudge que publicou no seu blogue dados sobre o assunto, "obrigando" os media convencionais a não reterem por mais tempo a informação. Esta maior velocidade da circulação da informação precisa de ser equacionada, pois os jornais de referência têm também regras mais estritas e morosas para garantir a credibilidade e a relevância da informação.
3. A notícia começa quando é publicada. A notícia é uma "conversa" entre quem a faz e quem a lê. Nos media convencionais, o ciclo da notícia fica completo com a sua impressão ou difusão. Nos blogues, a sua vida começa nesse momento a notícia é "mastigada" pela comunidade de leitores que pode fazer precisões ou discutir a credibilidade. No caso das intervenções solicitadas aos provedores, o modelo aproxima-se mais da notícia como início a que o leitor acrescenta mais-valia ou questionamento (depois continuada noutros níveis).
4. Os erros são facilmente admitidos e corrigidos. A posição em relação ao erro é muito diferenciada no jornalismo tradicional e nos blogues, segundo Outing. Nestes o seu autor integra o questionamento numa escrita a que é dado relevo semelhante. A televisão e a rádio não reconhecem praticamente o erro, e a imprensa escrita empurra-o para espaços de pouco relevo.
Uma outra reflexão deste mesmo autor salienta a imensidão de material que, no caso do tsunami, foi disponibilizada por pessoas que estiveram envolvidos na catástrofe, fazendo desta "cobertura" um caso de envolvimento dos cidadãos numa prática jornalística. As organizações noticiosas de referência poderiam e deveriam abarcar estes movimentos, acrescenta. "No futuro, talvez se venha a tornar rotina (...) encontrar o melhor do relato dos cidadãos misturado com o trabalho dos jornalistas profissionais." Alguns jornalistas parecem não levar a sério este movimento. Mas a BBC, por exemplo, integrou esse movimento no seu sítio. E o Guardian agregou, no seu sítio, o melhor que foi escrito nos blogues de cidadãos de todo o mundo. Gente atenta, precisa-se.
(1) Os Comentadores e os Media Os Autores das Colunas de Opinião, Livros Horizonte/CIMJ, 2005.
Não se pode deixar de saudar uma tecnologia que permite dar voz aos que a não tinham
José Carlos
Abrantes
e-mail provedor2004@dn.pt
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