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por
Vicente
jorge Silva
Praticamente desde a queda do salazarismo, um dos queixumes favoritos da direita tem sido o de que a esquerda monopolizou a sua influência ideológica nos meios de comunicação social. Mas basta passar os olhos pelos media para se perceber que esse queixume deixou de fazer sentido. Pelo contrário, as opiniões que neles hoje prevalecem - entre directores editoriais e a maioria dos colunistas - são claramente de direita, não decerto da direita salazarista clássica e petrificada no tempo, mas de uma nova direita "liberal", onde também pontificam alguns destacados militantes da esquerda formada pela cultura estalinista e maoista dos anos 70 (como são, por exemplo, José Manuel Fernandes ou João Carlos Espada).
É sintomático que o estrondoso desaire da direita nas últimas eleições tenha coincidido com esta alteração da paisagem. Ou seja no preciso momento em que as posições ideológicas de direita se impõem nos media, a direita político-partidária regista o seu maior desaire histórico dos últimos 30 anos. Isso significa, pelo menos, um curto-circuito entre a ideologia e a política da direita (das direitas), bem mais acentuado do que aquele que se verificou, ao longo do tempo, no campo da esquerda (ou das esquerdas).
As conclusões a extrair deste fenómeno não são lineares, mas demonstram, no mínimo, que a nova direita portuguesa, apesar dos claros favores de que hoje desfruta nos meios de comunicação social, é impotente para influenciar o espectro político-partidário de que está mais próxima. O destaque que o Público de ontem dedicou à crise das direitas parece indicar que as velhas angústias intelectuais da esquerda passaram para o campo contrário. Se a esquerda viveu demasiado tempo embaraçada com o fantasma de Estaline, a direita portuguesa continua incapaz de desembaraçar-se do fantasma de Salazar. E não basta Bush para libertá-la.
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