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luís naves
Uma subcomissão de inquérito do Senado norte-americano confirmou ontem que o antigo ditador chileno Augusto Pinochet tinha 125 contas em bancos nos Estados Unidos, incluindo numa subsidiária do Banco Espírito Santo (BES), na Florida. O DN tinha referido na sua edição de 9 de Janeiro que Pinochet possuíra contas no Espírito Santo Bank, de Miami, num valor superior a três milhões de dólares. O relatório do Senado é mais pormenorizado, indicando transferências de 3,91 milhões de dólares (três milhões de euros), em transacções efectuadas entre 1991 e 2000.
A notícia do DN tinha base na investigação da justiça e dos media chilenos e, na altura, contactado por este jornal, o porta-voz do BES recusou-se a comentar, afirmando que "mesmo que [Pinochet] fosse nosso cliente, estaria ao abrigo do sigilo bancário".
Uma possível explicação para a complexidade da rede de contas bancárias de Pinochet nos EUA pode ser o facto de, em casos de branqueamento de capitais, ser muito usada uma técnica de desdobramento dos montantes por contas distintas, sempre abaixo do limite legal a partir do qual a instituição é obrigada a contactar as autoridades do país, para investigação da origem do dinheiro. Segundo o relatório da subcomissão do Senado, o montante global mínimo desta rede ronda os 13 milhões de dólares.
A investigação foi liderada pelos senadores Carl Levin (democrata) e Norm Coleman (republicano). No relatório afirma-se que esta é "uma história sórdida de lavagem de dinheiro" e as instituições não escapam a duras críticas "A informação mostra que a rede de contas de Pinochet nos Estados Unidos era mais extensa, durou mais tempo e envolveu maior número de bancos do que se pensava. Alguns bancos ajudaram-no activamente a esconder o seu dinheiro".
E, mais à frente, no documento, pode ler-se outra grave acusação "Como antigo general e presidente do Chile, Pinochet era bem conhecido como violador dos direitos humanos e ditador violento. Mesmo a mais rudimentar obediência às regras federais de 'conheça o seu cliente' teriam sugerido que estas contas deviam ser investigadas e fechadas há muito tempo".
Além do BES, o escândalo envolve o Banco Riggs, o Citigroup e o Banco do Chile dos Estados Unidos. A investigação inclui recomendações, nomeadamente o reforço da cooperação entre os EUA e a União Europeia para que as respectivas subsidiárias troquem informação sobre os clientes e contas internacionais, para evitar branqueamento de capitais e financiamento de redes terroristas.
declínio. A investigação destas contas mostra a que ponto chegou o enriquecimento ilícito do ditador chileno. A história também representa um rombo na reputação de Augusto Pinochet, pois desfaz o mito do general incorruptível. O antigo Chefe do Estado está sob forte pressão da justiça, que tenta processá-lo (e aos colaboradores) pela repressão nos anos 70 e 80. A ditadura de Pinochet terá provocado a morte a mais de 3200 chilenos, mas inclui crimes cometidos em solo estrangeiro. O número de pessoas torturadas pode ultrapassar 27 mil.
A Imprensa chilena tem feito eco das complexas transacções financeiras da família de Pinochet, que usou bancos britânicos e norte-americanos, nem sempre com discrição. Para citar um exemplo, em 1976, em Londres, o general terá usado um passaporte diplomático para abrir uma conta bancária. Seria em Londres, dois anos depois, que terminou a sua impunidade. Numa visita ao Reino Unido, em Outubro de 1998, o antigo presidente chileno foi detido devido a um pedido de extradição de um tribunal espanhol.
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