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por
Vicente
jorge Silva
Medidos os prós e os contras, os pontos fortes e fracos, a primeira impressão que fica é globalmente positiva e porventura tão inusitada como a discrição com que Sócrates rodeou a formação da sua equipa. Eis um Governo discreto, compacto, sem superestrelas (a excepção mais notória e dissonante é Freitas do Amaral) e que talvez se pudesse resumir numa palavra higiene. Contrariando fundados receios, são poucos os resquícios da tralha guterrista e, sobretudo, do peso comprometedor de algumas amizades e fidelidades políticas do novo primeiro-ministro. Aí, a surpresa é tanto mais assinalável quanto é certo que a constituição das listas parlamentares do PS se destacara por uma confrangedora medio- cridade aparelhística.
Dir-se-á, justamente, que este Governo não é brilhante, não enche o olho, não revela grande imaginação na arquitectura dos pelouros e talvez peque por uma aparente modéstia de ambições. Mas é possível que essa humildade, essa recusa do estardalhaço inspirem uma maior solidez e uma maior coesão funcional - precisamente aquilo que tanto tem faltado em governos anteriores. Se, em geral, não há neste Executivo figuras que suscitem grandes entusiasmos, parece haver nele, pelo menos, nomes que reflectem escolhas sérias e criteriosas. Não é uma equipa de galácticos, como o Real Madrid; talvez se pareça mais com o Chelsea de Mourinho. Resta apenas saber se Sócrates terá o talento organizador e criativo do antigo treinador do FC Porto.
Aquele que parece ser o maior trunfo simbólico do novo Governo é, afinal, o seu ponto mais vulnerável, porque mais ostensivo e embaraçoso a presença de Freitas do Amaral nos Negócios Estrangeiros. Em contrapartida, há uma ausência que compensa essa presença, na medida em que liberta o novo Governo do mito insuportável dos homens providenciais: António Vitorino ficou de fora. "Habituem-se."
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