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João Paulo II dá sinal de vida à janela

por

Manuela Paixão

Correspondente em Roma  

Ao final da manhã, quase em simultâneo com o Angelus do meio-dia, que ontem foi pela primeira vez celebrado em nome do Papa (pelo Cardeal Sandri) na praça de São Pedro, João Paulo II surpreendeu todos -fiéis, peregrinos, turistas e cúria -, quando inesperadamente apareceu à janela do seu quarto, no Hospital Gemelli. Uma decisão certamente imposta pelo próprio, à última hora...

Na janela do quarto do doente mais importante do Hospital Gemelli houve um primeiro movimento da cortina, depois completamente corrida. Finalmente, o Papa, na cadeira de rodas, empurrado pelo fiel secretário, D. Stanislaw. A mão levanta-se e abençoa uma pequena multidão, cá em baixo, sob o céu cinzento e a chuva torrencial, com cânticos e vivas "João Paulo II, não desistas nunca."

A primeira ausência do Angelus em quase 27 anos de pontificado gerou medo e dúvida. Mas o momento da janela causou uma explosão de alegria e lágrimas. O Papa saudou, tocou na garganta e desapareceu. Quase como uma aparição... "O Papa voltou, está de novo entre nós", dizia soluçando uma jovem turista austríaca. "Na Praça de S. Pedro disseram-me que o Papa não ia aparecer à janela dos aposentos no Vaticano porque estava hospitalizado. Vim com fé que iria aparecer. Como podia vir a Roma e não ver o Papa?"

Foram poucos instantes, mas suficientes para demonstrar ao mundo que as suas faculdades continuam activas. No Hospital Gemelli, a multidão não escutou a voz de D. Leonardo Sandri, que leu a mensagem do Papa, e abençoou os fiéis. Na Praça de S. Pedro a multidão não viu o Papa à janela. Mas nestes poucos minutos parecia que as distâncias tinham sido anuladas.

O pós-operatório decorre sem problemas, mas o Papa tem muita idade e está frágil. Por causa da traqueotomia, que lhe permite agora respirar, será obrigado por tempo ainda indeterminado a ficar em silêncio, para proteger a laringe.

Por outro lado, precisa de tratamentos constantes e não pode ser sujeito a situações de stress.

Os efeitos da operação parecem ter sido bons e imediatos. O Papa respira bem e sem ajuda mecânica, alimenta-se normalmente, mas tem um risco altíssimo de infecções. As visitas, mesmo ao mais alto nível, não passam o limiar da porta do quarto, e são reduzidas ao mínimo. A grande preocupação nos próximos dias será a de se saber se o tubo introduzido na traqueia para lhe facilitar a respiração terá de ser permanente. Nesse caso, o Papa terá de falar num fio de voz num timbre diferente. Mas neste momento poucos saberão exactamente qual é a situação.


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