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QMário bettencourt resendes
uatro anos é muito tempo na vida de uma organização política como o Bloco de Esquerda. Pode mesmo ser tempo a mais.
Nas eleições legislativas de domingo, o Bloco tinha como objectivo central, mesmo que não abertamente assumido, apresentar-se aos socialistas e ao País com um grupo de deputados necessários para a formação de uma maioria parlamentar à esquerda. Provavelmente, trocaria uma parte dos ganhos conseguidos por esse papel de primeira linha. O mesmo é válido para o PCP, mas o partido de Jerónimo de Sousa tem uma vocação de "corredor de fundo" que o Bloco ainda está longe de ter consolidado.
A dinâmica de Francisco Louçã e seus pares bem como o apelo das "causas fracturantes" do Bloco de Esquerda não são transponíveis para as eleições autárquicas. Terão uma palavra a dizer, é certo, em Lisboa, Porto e Setúbal, eventualmente integrados em coligações, mas pouco mais do que isso. E a votação nacional baixará consideravelmente. Vêm, depois, as presidenciais, onde o Bloco não se pode dar ao luxo de contribuir para a eleição de um candidato de direita. Ou seja, não é de excluir que seja brigado a engolir um sapo amargo.
Louçã já afirmou, por outro lado, que não fará a vida fácil ao PS em matéria de calendarização do prometido referendo sobre a despenalização do aborto, mas essa é uma matéria em que José Sócrates não terá dificuldade em fazer entender aos portugueses que seria insensato promover a consulta num ano tão "pesado" em campanhas e idas às urnas.
E, levado a cabo o referendo, o mais provável é a questão ficar arrumada e o Bloco ver esvaziada uma das suas principais bandeiras de combate político.
Quer isto dizer que o BE está condenado, nas legislativas de 2009, a um destino semelhante ao que teve o famigerado epifenómeno inspirado pelo general Eanes, o Partido Renovador Democrático? Sobre isto, fariam bem os socialistas em conter algum triunfalismo e ter presentes as mais recentes palavras de Sócrates sobre os "tempos difíceis" que aí vêm.
Mesmo não esquecendo que o futuro Governo procurará, no mínimo, não comprometer as vitórias do PS nas autárquicas e da esquerda nas presidenciais, há um conjunto de medidas de austeridade económica que não se compadece com grande adiamentos. Serão, naturalmente, compensadas com políticas sociais, mas é uma ilusão pensar-se que o paraíso está agora, aí, ao virar da esquina. E o PS sabe que, num mandato de quatro anos, é na primeira metade que devem ser concentradas as iniciativas mais dolorosas. Vai ser preciso negociar com sindicatos e patronato, é indispensável conseguir maior flexibilidade por parte de Bruxelas e levar ao limite o potencial, já muito reduzido, que existe, em termos nacionais, na política monetária.
Portanto, as formações à esquerda do PS terão margem de manobra para capitalizar descontentamentos inevitáveis. O PCP, ainda com implantação significativa no mundo sindical, não deixará os seus créditos por mãos alheias. O "sorriso de aço" de Jerónimo de Sousa não fará a vida fácil ao Governo do PS.
Para o Bloco, o futuro é mais complexo. A frescura da sua retórica tenderá a desgastar-se. Em boa verdade, Louçã já não teve, nesta última campanha, a graça dos primeiros tempos cometeu um deslize autoritário, grave no debate com Paulo Portas e resvalou para um perfil de "pregador", pouco compatível com uma organização política que se afirmou pela irreverência.
Resta, sempre, o exemplo dos Verdes alemães meter a revolução na gaveta, disponibilizar-se para parceiro de uma "governação responsável", enfim, integrar-se no sistema, mesmo sem deixar cair a verve de "uma esquerda exigente".
Por esse caminho, poderão ambicionar, a partir de 2009, ser o suporte de um Partido Socialista que dificilmente repetirá a votação de 20 de Fevereiro de 2004. Ficará, então, aberta a via para outros "blocos", susceptíveis de canalizar para as instituições democráticas as expectativas e angústias de faixas da população que nunca se reconhecerão nos partidos tradicionais do sistema.
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