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OVasco
graça Moura
grande derrotado nestas eleições foi o País. Virou à esquerda e entregou o poder a um sector dela que é manifestamente incapaz de governar de modo a responder às necessidades dos portugueses.
Pode, evidentemente, sustentar-se que a governação PSD- -CDS/PP pagou, seja pelos últimos três anos, seja pelos últimos oito meses, ou, dizendo de outra maneira, que a essa governação foi imputada a incapacidade de solução dos grandes problemas económicos e sociais, embora eles já viessem muito de trás, e que tal facto acarretou a consequente penalização dos partidos coligados.
Mas isso não pode escamotear o facto de a maioria do eleitorado ter apostado agora na sustentabilidade do insustentável como solução para esses mesmos grandes problemas. Não me refiro ao eleitorado tradicional do PCP nem ao eleitorado recente do Bloco de Esquerda que tem motivações ideológicas fortes. Refiro-me ao eleitorado que deu ao PS uma maioria absoluta só compreensível enquanto largamente proveniente do centro.
Ora, ao contrário do que sustentam os socialistas e os analistas, o eleitorado português não apostou na mudança. É conservador, corporativo e retrógrado. Essa é a estabilidade que pretende lhe seja garantida. Por isso é que não precisava de esclarecimentos nem de discussão dos programas. Por isso é que não se importou com a súbita metamorfose das "promessas" em "objectivos". Objectivos assim não comprometem ninguém nem impõem sacrifícios a ninguém. Não garantem rigor e, para os estultos, dispensam austeridade e apertos de cinto.
O eleitorado já vinha a sentir grande mal-estar nos tempos do Governo de Durão Barroso. Estava a pagar os malefícios da governação socialista e não queria ter de pagá-los. Está-se nas tintas para coisas como o desenvolvimento sustentado, o equilíbrio das contas, a contenção da despesa pública, a sorte das gerações futuras, etc., etc.
Tudo ponderado, prefere que o estilo PS seja reeditado, se possível para pior. Não levou a bem o desconforto imposto pela coligação PSD-CDS/PP. Decorridos três anos, precisava, sim, de que lhe acenassem com um regresso aos tempos do guterrismo e, muito em coerência com isso, apostou em que nada mudaria, de modo a que o Estado continue a cuidar de tudo, a pagar tudo, a subsidiar tudo, a suportar tudo e, last but not least, a empregar cada vez mais gente. Esse é o "milagre da rosa" que o mobilizou e que ele deseja e aplaude.
Nisto, a atitude do eleitora- do português tem muita semelhança com uma atitude muito gene- ralizada na Europa por cá, trata- -se de aguentar o modelo social português, tal como, por lá, se trata de aguentar o modelo social europeu.
Toda a gente sabe ser essa uma manifesta impossibilidade, mas toda a gente persiste em falar pateticamente em economia do conhecimento, em agenda de Lisboa e em competitividade com outras áreas do mundo, em especial com os Estados Unidos, omitindo os dados essenciais do problema.
Também toda a gente sabe que, mantendo-se as coisas como estão, ou voltando elas ao que eram entre 1995 e 2002, não haverá mais do que uma degradação acentuada de todos os aspectos da vida nacional. Mas na maioria ninguém se preocupa com isso.
No eldorado que se prepara, os impostos não vão subir. O que vai subir é o endividamento do Estado, das empresas e das famílias. As reformas estruturais não vão ter lugar. O que vai acontecer é o esbanjamento a pretexto de uma luta contra a exclusão social. A educação não vai melhorar. Há-de voltar-se ao educativamente correcto, com as criancinhas a balbuciarem to be or not to be pela mão de professores que mal sabem falar português. A saúde vai ficar na mesma. O Governo há-de dizer que sim a tudo o que lhe exigirem os médicos, os gestores hospitalares, os enfermeiros, os laboratórios, as farmácias e os doentes. E assim sucessivamente.
Portugal não vai sofrer nenhum choque tecnológico, mas sim um choque teratológico. A curto prazo, terá de enfrentar uma monstruosidade sem pés nem cabeça e tornar-se-á uma aberração irresponsável e ingovernável.
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