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por
Paula Mourato
"Não tenhais medo das novas tecnologias! Já que estão entre as coisas maravilhosas que Deus colocou à nossa disposição para descobrir, usar, dar a conhecer a ver- dade", escreveu o Papa João Paulo II na Carta Apostólica que dirigiu aos responsáveis da Comunicação Social.
Sob o signo do progresso, o Vaticano, apesar de continuar a utilizar uma linguagem hermética nas questões teológicas, lançou um olhar encorajador sobre as novas tecnologias e sobre os media em geral.
O Papa prossegue, assim, o longo caminho desde o decreto Inter Mirifica, o primeiro documento sobre a comunicação social promulgado pelo Concílio Ecuménico Vaticano II em 1963, reconhecendo que esse documento não é completo e actual.
Na Carta Apostólica, o Sumo Pontífice abre espaço a uma nova reflexão "sobre os desafios que a Comunicação Social coloca à Igreja" que se sentiria "culpada perante Deus se não usasse esses poderosos meios para difundir o Evangelho". Assim , "a Igreja adverte que o uso das técnicas e das tecnologias de comunicação contemporâneas são parte integrante da sua própria missão no terceiro milénio".
Numa "mudança de mentalidade e renovação pastoral", João Paulo II apela ao uso da Internet, dizendo que "muitos cristãos usam este novo instrumento de modo criativo, explorando as potencialidades para a evangelização, para a educação, para a comunicação interna, para a administração e governo".
Contactado pelo DN, o padre António Rego afirmou que este documento é "muito aberto às potencialidades das novas tecnologias". Entende que a Igreja vê a Comunicação Social como "o grande areópago" (tribunal na tragédia Eumênides de Ésquilo) dos tempos modernos e reconhece os media como instrumento fundamental para promover a solidariedade e a justiça.
De acordo com o padre António Rego, esta Carta Apostólica quer "alertar para a urgência que há na utilização da Internet e a sua correlação com outros meios, como a televisão e a rádio". Adiantou, ainda, que "há um grande apelo da Igreja para que sinta a responsabilidade de evangilizar com estes meios".
O DN falou também com Manuel Villas-Boas. O jornalista da TSF explicou que a Carta Apostólica foi escrita "num tom positivo e optimista".
"O documento não é tão moralista quanto outros do passado, chamando a atenção para questões éticas e morais da informação", disse. Manuel Villas-Boas manifestou-se surpreendido com o "expressivo aplauso às novas tecnologias".
O jornalista da TSF referiu que "é curioso que veja com bons olhos a cooperação ecuménica e inter-religiosa, a abertura a outras religiões", sublinhando que está patente no texto a "obrigatoriedade de saber utilizar a comunicação cocial" como meio de evangelização.
Segundo o jornalista, a "Igreja percebeu que fala velho. Faz falta à Igreja falar uma nova linguagem e uma linguagem nova". Manuel Villas-Boas reconheceu que " estava à espera de um texto castigador, uma vez que a Igreja tem uma desconfiança clássica em relação à Comunicação Social".
Villas-Boas mencionou, ainda, o ponto 12 da Carta para falar na questão da opinião pública. "Não esconde a palavra mas mantém-na sob reservas", disse, lembrando que para o Vaticano importa" falar sem pôr em causa as coisas que estão ditas e organizadas, daí a perseguição a alguns teólogos".
O jornalista da Rádio Renascença Francisco Sarsfield Cabral declarou-se satisfeito com a posição do Vaticano.
"Acho bem que a Igreja encare as novas tecnologias de forma positiva, como parte da sua missão", afirmou ao DN.
A Carta Apostólica faz um "apelo para que a vida cristã tenha em conta a cultura mediática em que vivemos", referiu. Sarsfield Cabral destaca, também, a "importância que dá à formação dos profissionais da informação".
Para o jornalista, o documento "está virado para os meios de comunicação utilizados pela Igreja. Não é uma crítica à sociedade mediática em geral". As novas tecnologias são apontadas na "perspectiva da utilização pela Igreja, até impondo a sua utilização por parte dos cristãos. Há um apelo para que saibam usá-las", concluiu Francisco Sarsfield Cabral.
Esta Carta Apostólica parece, desta forma, abrir ou pelo menos entreabrir as portas da Igreja ao século XXI, o próprio texto contém expressões actuais como "nova cultura" ou "aldeia global".
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