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Elas insultam, ameaçam e são mais perversas

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Céu Neves  

Qual é o tipo de abordagem que os homens fazem quando se queixam de violência doméstica?

O primeiro contacto é por telefone, tentam perceber quais são os seus direitos. Começam por falar de um familiar ou amigo, mas percebe-se que são eles as vítimas de maus tratos pela forma como contam a história. É tudo muito vivido, muito sofrido. A maioria recusa o acompanhamento psicológico, pois tem dificuldade em lidar com a vitimação, por causa do estigma social que isso representa.

Ainda é precisa muita coragem...

Está a aumentar o número de homens que denunciam a situação, mas têm vergonha. Foi há pouco tempo que se começou a falar na violência doméstica no masculino. A maioria das instituições não está preparada para lidar com a questão e as pessoas têm medo de ser gozadas, de sofrer uma vitimação secundária.

O que é que contribuiu para o aumento das queixas?

Há uma maior visibilidade do fenómeno da violência doméstica e os homens tomaram consciência de que também são vítimas. Tem ainda a ver com o discurso não moralista das organizações não governamentais, como a Associação Portuguesa do Apoio à Vítima (APAV).

O perfil da vítima homem é diferente do da da vítima mulher?

É idêntico. Têm entre 30 e 50 anos, uma escolaridade ao nível do 12.º ano ou superior. Estão desempregados ou têm empregos em que ganham menos do que as mulheres. Têm baixa auto-estima e uma imagem corporal desvalorizada.

Como é que são as agressoras?

Muitas vezes são mulheres com problemas psiquiátricos, como a esquizofrenia e a psicose, associados a sintomas de agressividade.

Que tipo de violência exercem?

A violência sobre os homens é mais psicológica (insultos, ameaças), mas quando é física é extremamente violenta. Ameaçam com envenenamento ou que têm uma faca debaixo da almofada, do género "Toma atenção que esta pode ser a tua última sopa." Houve uma que colocou vidros de copos na cama do marido. A mulher é fisicamente mais frágil que o homem e recorre a utensílios domésticos e a armas brancas. É uma violência muito mais requintada, perversa. O homem utiliza mais força bruta.

É mais difícil recuperar a confiança de um homem vítima de violência?

A recuperação é sempre mais difícil do ponto de vista psicológico do que físico. Nos homens é mais complicado, porque ensinaram-lhes que são eles que batem na mulher e não o contrário. Temos de fazer perceber que não é caso único e que não têm de se sujeitar aos maus tratos pela vergonha de se exporem.

Não precisariam de mais apoios, como casas de abrigo, já que tudo é pensado na mulher?

Provavelmente, mas o sexo masculino tem mais recursos, encontra mais facilmente emprego. Além disso, o homem que agride a mulher tem tendência a persegui-la, o que não acontece com a agressora mulher. E elas quando saem de casa levam os filhos, o que não acontece com a vítima masculina.


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