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david mandim
fernando madaíl
DN-Ursula Zangger
Após um quarteto de rostos dirigentes (Louçã, Portas, Fazenda, Rosas), o Bloco está a assumir a figura do líder?
Pelo contrário. Uma das forças do BE é não ter essa estrutura piramidal, com o rei no centro, a corte à sua volta e vários duques em conspirações de palácio, como acontece no PS ou no PSD. Veja-se o PSD só se fala de quem vai substituir Santana Lopes na noite do dia 20.
Após a fusão do PSR, UDP e Política XXI, qual é agora a matriz ideológica?
Juntamos a indignação com a situação social do País e a vontade de mudança, mas o que marca o BE é a esperança, a capacidade de mudar. E isso é uma definição. O Bloco tem uma plataforma política, ideias fortes - uma ideologia, nesse sentido, que representa uma política socialista. Somos os únicos socialistas em Portugal, com uma política e um compromisso socialistas. Olhamos para o País vendo o que tem de mudar na desumanidade profunda da exploração e da discriminação. Hoje, há um apartheid social os idosos estão excluídos da cidadania, os de-sempregados não existem. Santana Lopes orgulha-se de ter uma baixa taxa de desemprego e não faz a mínima ideia do que são estes 516 mil homens e mulheres, a maior parte dos quais já não vai aos centros de emprego. A resposta a estas questões são ideias fortíssimas, que marcam a política do BE.
O PS acusa o BE de não querer assumir responsabilidades governativas.
Creio que essa é uma crítica sem consistência. O BE assumirá responsabilidades de Governo quando tiver os votos que correspondam a um mandato para o fazer. Não o fazemos quando temos 6, 7 ou 8%. Mas o Bloco apresenta as únicas propostas concretas que tenho visto no debate sobre políticas realizáveis os modelos de formação profissional, política de deficientes, emprego para os jovens licenciados, transformação tecnológica nas empresas e criação de centros de qualidade, o custo que representa em investimento público o apoio ao sector privado e como deve ser feito. Nenhum outro partido o fez. Pelo contrário. Quando se vê a política de emprego que o BE e o PS apresentam, digo que a do PS é irrealizável, porque não tem fundamento nenhum, é um mero objectivo abstracto - 150 mil empregos. Nós dizemos onde e como se podem criar, com que custo e que sacrifícios é que isso representa - é a única política de Governo concreta para o dia 21 de Fevereiro.
Em vez das questões fracturantes, a campanha tem incidido na economia.
Não acho que haja questões fracturantes. Penso que isso é um termo depreciativo, eivado de preconceitos atrasados. A questão do aborto é uma questão fracturante? 80% da população portuguesa quer que a questão se resolva com uma lei europeia. Fracturante porquê? Só o é para fanáticos, que acham que a mulher deve ser perseguida. Ou a questão da homossexualidade. Hoje, em todos os países europeus, vive-se com toda a naturalidade que o Estado não escolhe os parceiros amorosos das pessoas. O que é que o Estado tem a ver com isso? Evidentemente, tomando posição sobre todos os direitos fundamentais, batemo-nos por questões determinantes da política nacional. O País caiu na mais profunda crise desde o 25 de Abril, que é a crise do desemprego - que vai aumentar, nos próximos anos, se não houver novas políticas económicas -, e temos os salários e as pensões mais baixos da Europa. Não nos calamos sobre nenhum aspecto, mas concentramo-nos sobre o essencial. Porque acho que este é um desafio a toda a esquerda. Hoje, os homens e mulheres de esquerda perguntar-se--ão se as políticas que podem mudar o País são as do PS ou as do BE.
A CDU nem sequer entra nas alternativas, que são só as do PS e as do BE?
Creio que essas são as alternativas fundamentais. Naturalmente, a CDU existe e é uma força respeitável, com a qual teremos todos os diálogos, como temos tido ao longo do tempo. Perguntam-me se me incomoda que em todos os comícios do PCP haja alusões, críticas, insinuações e, por vezes, mesmo calúnias. Não me incomoda, porque essa forma de debate político é prova de falta de preparação para os diálogos que são necessários na esquerda. Nós manteremos sempre a mesma atitude dialogante. O povo da esquerda deve ser capaz de falar entre si e de criar uma alternativa de esperança e de mobilização.
A CDU considera que o BE apenas costuma reciclar as suas propostas.
Cada um dirá o que pensa. Mas veja--se a política de toxicodependência o PCP tem uma história de proibicionismo a esse respeito. Perguntemos: porque é que começou a ser possível diálogos à esquerda na AR (violência doméstica, pílula do dia seguinte, contratos a prazo, nova política sobre droga, o princípio de uma reforma fiscal)? Porque o BE estava no Parlamento. Em vez do sectarismo de quem se afirma como partido único, como doutrina única, que procura submeter os outros, nós procuramos uma aliança natural, um diálogo aberto com as outras forças, sem qualquer preconceito. E não vivemos de nenhuma fantasmagoria dominadora, porque achamos que ela não tem sentido entre partidos de esquerda. Por isso, as grandes diferenças essenciais que temos com a CDU não são sobre essas respostas políticas. As diferenças são a China e a Coreia do Norte, modelos de socialismo que determinam uma forma de pensar a política afunilada, segundo os princípios do partido único, totalmente errados do ponto de vista da concepção do socialismo.
Mas a comunicação social não costuma levar o Bloco ao colo?
Com franqueza! Faça-se uma avaliação rigorosa desta campanha eleitoral sou eu que sou levado ao colo ou é o Jerónimo de Sousa? Nós batemo--nos por uma mudança e sabemos como magoamos os interesses económicos da direita. Quando o PSD faz cartazes contra a esquerda, contra quem é que os faz? Faz um contra o PS ("eles voltam") e outro contra o BE, sobre a questão do desemprego. Paulo Portas e Santana Lopes falam é do medo da subida do Bloco. Abrenúncio que eles podem tomar conta do País. Queremos determinar as políticas e percebemos que isso assuste a direita.
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