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Vmanuel
de lucena
otar útil, para quê? Votos úteis há-os de várias espécies, consoante o que, com eles, se quer. E assim
1. Enquanto prova de que os portugueses estão politicamente vivos e participativos, todos os votos serão úteis no próximo domingo até os nulos, tão suspeitos de inépcia, e mesmo os brancos, que manifestam certa fé no sistema de mistura com o desagrado. Não por acaso, de todos os lados se clama contra a abstenção. E, no entanto, também ela poderá ser útil, enquanto admoestação, para que os destinatários se emendem a tempo.
Noutro comprimento de onda, um certo abstencionismo (de esquerda) impediria a obtenção de uma maioria absoluta monopartidária, que só o PS pede, aí residindo a sua utilidade; e contentaria os adversários do dito partido, claro; mas mesmo entre os seus partidários há quem encolha os ombros, tão pouco estimulante tem sido a campanha.
2. Para os que, em legislativas, queiram deveras eleger directamente o primeiro-ministro, voto útil será, tão-só, voto no PS ou no PSD, únicos cujos cabeças de cartaz têm podido aspirar à vitória, de eleição em eleição. No fundo desta posição, responsável por algumas arrogâncias da presente campanha, está a tendência para um sistema político bipartidário está se ela for séria, mas parece que, salvo alguma rara excepção o não é, pois implica uma revisão constitucional que ainda ninguém de tomo propôs... Também as circunstâncias, que alguns julgaram favoráveis ao tentarem impedir, há meses, a nomeação de Santana Lopes, se tornaram madrastas de então para cá. E, hoje, os dois maiores partidos, embora rufem tambores pelos seus candidatos ao alto cargo, sabem que eles são fracos e pedem a Deus que lhes não afugentem demasiado indecisos.
3. Para quem deseja que das próximas eleições saia maioria absoluta, um caminho óbvio será fazê-la de um só partido, como o PS insistentemente pede. Mas, o fim confesso (e único confessável) dessa operação não consiste em se instaurar uma espécie de ditadura democrática monopartidária e sim em se garantir a estabilidade política do País. Eis o que uma sólida coligação também conseguiria ou conseguirá; convindo lembrar, a propósito, que ao coligado Governo cessante apoio parlamentar maioritário nunca faltou; e que, se os eleitores deixarem, a direita se propõe reproduzi-lo. À esquerda é que as divergências parecem abismais de formal coligação nem se fala e até duradouros entendimentos, viabiliza- dores de um Governo minoritário, parecem assaz problemáticos. E compreende-se: com os socialistas à pesca, tão solicitamente virados para o outro lado, o PCP e o Bloco têm de engrossar a voz ao darem-se com eles, de contrário estar-lhes-iam passando um cheque em branco e afogando-se nas águas de um oportunismo direitista. É só ler os clássicos.
Não deixam estes partidos, é verdade - sobretudo o comunista, mais cordato e chefiado por um Jerónimo surpreendentemente sedutor - de se mostrarem abertos à colaboração com o PS, não vão muitos eleitores concluir que votar neles é abrir a porta à ingovernabilidade . Mas de facto abrem e ela brilha vivamente ao fundo deste túnel. Todos sabemos que a questão se não põe do mesmo modo nos dois lados à direita o voto útil em apreço pode, com naturalidade, ir para o PSD ou para o CDS/PP, por mais que a lembrança do jovem Portas ainda faça mossa (e encavaque) aqui e ali; à esquerda, em se tratando de maioria absoluta, só o PS constitui opção tranquila.
4. Muita gente assustadiça, para quem o homem é o demónio - quando os seus acessos, iluminados pelas luzes da ribalta e por elas suscitados, nada têm de autenticamente demoníaco não passam de mafarriquices, febrezitas que lhe sacodem as veias - vê nestas eleições um plebiscito contra Santana Lopes. Em princípio, votos úteis serão, nesta ordem de ideias, todos quantos não forem para o PSD. Mas a festa acabará por desaguar na da maioria absoluta do PS, em se entendendo que a vitória definitiva sobre o maligno exige um resultado que se não preste a confusões e antes exija a entronização de um anjo bom, socrático para mais. Estrategas astuciosos jogam nesta transmutação em voto por de um voto contra; e talvez ganhem, porque a política não é pura razão. Do preço disso já aqui falei há uma semana.
5. Agora, para terminar convoco aqueles para quem voto útil será o que confirme entre nós o pluralismo político, reforçando-lhe a expressão parlamentar; o que nos aproxime de uma Europa onde vigora a regra antiabsolutista das coligações; e o que favoreça a instauração, no Portugal democrático, do Estado de direito que tanta falta continua a fazer-lhe falta essa (notem os utilitaristas) cuja persistência tem desagradáveis efeitos no plano do desenvolvimento económico.
Estas três coisas conjugam-se numa oposição ao desejo de maioria absoluta monopartidária; mas não se confundem umas com as outras, merecendo, cada qual, um discurso separado. Para tal não tendo espaço, despeço-me já do argumento pluralista e também do europeísta, que falam bastante por si. Quanto ao do Estado de direito, cuja evidência é menor, convence quem acha que o PS e PSD - ameaçando atingir ou até ultrapassar (somados) a cota dos 80% - formam um bloco central excessivamente poderoso, maioria constituinte e legislativa responsável não só pelas anomalias que ainda marcam a nossa constituição formal e material mas também pelo lamentável estado em que se encontra a justiça portuguesa, sobretudo ao nível da investigação criminal e do processo penal.
Para quem for mais sensível a tudo isto, voto útil será num pequeno partido, procurando reduzir a preponderância do "centrão" na cena política portuguesa.
E pronto. Apenas me resta deixar claro que também irei por aqui, depois de ter passado mais de 20 anos a votar ora no PS ora no PSD.
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