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"Santana e Sócrates não são verdadeiros adversários"

por

filipe santos costa

DN-Paulo Spranger  

Disse há um ano que Santana Lopes "é um homem para todos os tempos, chova ou faça sol". Entretanto, ele chegou a primeiro-ministro. Acha que ele esteve à altura desse tempo?

Santana Lopes tem uma característica que é o que eu considero o homem de futuro o homem de futuro é o homem comum. A nossa gente está ainda educada para ser excepcional e para ter uma certa subserviência perante o homem excepcional, que é o salvador da pátria, o grande economista, o grande guerreiro... Mas essa imagem foi-se esbatendo e o futuro é do homem comum. Preparado, mas que não se distancia das multidões.

Qual é a diferença entre o homem comum e o medíocre?

O medíocre é, de certa maneira, a pessoa que não tem capacidades e a quem não podemos exigir mais. O homem comum tem capacidades e tem que se confrontar com elas e tem que estar preparado para as usar. Mas não é um génio.

Vai votar em Santana Lopes?

Vou, sim.

Não acha que ele falhou como primeiro-ministro?

Eu não digo que ele falhasse, ele foi interrompido, simplesmente. E não foi um governo ideal, como os outros não foram. Não era melhor nem pior do que os outros.

Como explica a agitação dos meses em que ele foi primeiro-ministro? Foram só circunstâncias adversas?

Foram as circunstâncias e sobretudo recaiu sobre ele uma certa visão de superficialidade, de que ele podia desaparecer da política sem deixar rasto. Estamos num país que tem sido muito castigado e a maioria das pessoas que vêm televisão têm sido agredidas, de há um ano para cá, pelo caso da Casa Pia. Isso deixa marcas profundas, aquele estado de confiança do povo desapareceu, as pessoas não confiam em ninguém. Se não confiam no seu vizinho nem no seu pai, nem no filho, também não confiam no seu político. É uma população historicamente excepcional, porque o que é a sua natureza profunda foi abalada e é esse povo que vai votar.

E Santana inspira confiança?

Houve uma necessidade de encontrar um culpado e o Santana Lopes pareceu-lhes o culpado ideal. Porque é preciso que alguém assuma a culpa pelo que se passa no País e não se fala em mais ninguém, só se fala no Santana Lopes. Porque julgam que ele será vulnerável, que tem falta de preparação intelectual. Como tem sido constantemente avaliado pelos media, pelas suas gaffes, pelo seu comportamento pessoal, e criou uma imagem de facilidade quanto a um ataque, é a pessoa que merece ser culpada.

Santana não se pôs a jeito? Todos os dias havia um caso com o Governo...

Não. Ele é ambicioso e uma pessoa ambiciosa não é cautelosa. Ele nunca foi nem há-de ser cauteloso.

A figura de quem Santana Lopes se reclama herdeiro político é Sá Carneiro, que a Agustina conheceu bem. Santana pode reclamar essa herança?

Não, mas é fácil. É fácil para as pessoas, porque deixou uma tal aura...

Acha legítima a apropriação dessa herança que tem sido feita por Santana?

Eu penso que não é legítima essa apropriação, mas politicamente isso é legítimo, porque é uma estratégia como qualquer outra. Houve uma certa leviandade [de Santana] em utilizar naquele cartaz determinadas figuras do PSD. Nós não sabemos qual seria a atitude de Sá Carneiro quanto a esse cartaz, porque ele era uma pessoa muito rígida. Mas ele morreu, ganhou uma dimensão trágica e sai do túmulo quando é necessário politicamente.

Cavaco Silva dizia há uns meses que a política portuguesa está muito desinteressante. Concorda?

Não, de maneira nenhuma. Eu acho que a política está mais interessante do que há vinte anos. Está muito ramificada, há muitos caminhos, há convulsão. Vivemos uma época capaz de apresentar grandes surpresas.

O que é que se está a escolher quando se escolhe entre Santana Lopes e José Sócrates?

O que é interessante é que José Sócrates e Santana Lopes não são verdadeiramente inimigos, não são verdadeiros adversários. Para haver duas personagens que representem dois partidos tem que haver uma convicção profunda de que cada um está no seu extremo e que luta pela sua causa. E entre José Sócrates e Santana não há isso. Repare que eles foram durante muito tempo bons camaradas na televisão...

Parecem mais irmãos desavindos do que adversários?

Eu acho que sim [risos].

Então, porque é que se escolhe um ou outro? Porque um fala melhor e outro pior? Porque um é mais simpático ou mais bonito?

O Santana tem um instinto das situações. Sabe incutir confiança falando pausadamente, dando a impressão de que conhece profundamente as coisas de que fala, há um dom de se saber manifestar perante um público. Talvez isso venha dum hábito e duma ambição política. Parece-me uma pessoa a quem interessam os resultados, e nessa medida é combativo. O perigo do Santana Lopes é que ele é capaz de se desiludir de repente. Mas se sentir o estímulo do seu clã, pode ir longe.

E Sócrates?

Não tem isso, não tem ambição.

O que é que vê nele?

Vejo um nome! [risos] Vejo um nome que não corresponde ao seu original [risos]. Eu nunca fui socrática, mas este caminho de jogar com os nomes é fácil, não vamos por aí... O que é que eu vejo nele?... Isso teria que ser perguntado aos correligionários dele. O que é que eles viram para o escolherem como substituto de Ferro Rodrigues? Está mal substituído, sem dúvida.

O que é que lhe falta?

A grandeza e a capacidade que teve o Ferro perante as dificuldades.

Nesta campanha tem-se falado pouco de propostas e ideias e muito de pessoas. Como se explica que a política esteja reduzida a um jogo de afectos, mais do que de projectos?

Na situação em que Portugal está, não tem condições para analisar propostas. E, de resto, o português é muito imediato, faz as coisas por inspiração.

O que Santana fez nestes seis meses recomenda-o para um novo mandato?

Ora deixe-me pensar nisso... O que ele fez é controverso. Eu reconheço que houve escolhas como presidente da câmara e como primeiro-ministro que foram uma precipitação. Talvez a ambição se sobreponha à razão. O que não quer dizer que essa pessoa com mais tempo, com mais escolha...

Um líder também se avalia pelas pessoas que escolhe. Ele falhou nisso?

Nalguns casos sim, houve precipitação. Mas isso não são aspectos que não possam ser corrigidos. As pessoas substituem-se.

Santana Lopes tem vivido numa lógica de vitimização o Presidente que não o deixou governar, os companheiros de partido que o atraiçoam...

Sim, mas isso politicamente é uma daquelas astúcias...

Mas as pessoas querem líderes que se queixam?

Nós temos provérbios em que o queixume é apresentado como alguma coisa de positivo [risos]. As pessoas, mesmo que não queiram, põem-se no lugar dele. Ao mesmo tempo que não gostam de vítimas, põem-se facilmente no lugar da vítima.

Diz que ele foi escolhido como vítima. Por quem?

Quem... Hoje já não se fala nos dez homenzinhos misteriosos que ninguém sabe quem são. Estamos a falar do mundo da economia, da finança, dos interesses, é um mundo para lá da moral.

Se Santana perder as eleições, pode reservar-se para ser candidato à Presidência da República (PR)?

Mas porque é que um político há-de querer ser PR? Nunca percebi. Se eu fosse político, queria acabar como político, não numa espécie de reforma.

O que pensa da forma como Jorge Sampaio geriu a crise política?

Achei enternecedora. Ele procurou ser uma boa pessoa e quando alguém tenta ser boa pessoa, acaba por não ser! No noutro dia lembraram-me uma frase dum livro meu "Cuidado com as boas intenções, porque atrás delas vêm as más."


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