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OBloco de Esquerda irrita-me a pituitária. Quando escuto Francisco Louçã a falar ao povo em tom de evangelista imagino-o gago e afónico; quando descubro Miguel Portas a distribuir panfletos entre os jovens apetece-me roubar-lhe o blazer e os mocassins; quando leio Fernando Rosas a perorar contra o mundo desejo introduzir substâncias ilegais no seu cachimbo. É mais forte do que eu. Para mim, esquerda, esquerda, é o Partido Comunista e os velhinhos de Cuba; esquerda, esquerda, é o Jerónimo de Sousa, cujo fácies parece ter sido arrancado a um mural soviético. O Bloco é a burguesia a fingir-se preocupada com o povo, é um grupelho de latifundiários a sonhar com a reforma agrária.
Só que este grupelho está a deixar de ser grupelho. As sondagens de sexta-feira indicavam que o Bloco tem possibilidades de vir a ser o terceiro partido mais votado nas próximas eleições. Parece-me um wishful thinking intelectual chic, mas não deixa de ser assustador como se já não bastasse a mediocridade de Santana e de José "falar verdade" Sócrates, o que nos faltava agora era ter o Bloco como reserva política da nação. Ora, por baixo da máscara de partido cool, o que se esconde é uma agremiação intolerante, porque absolutamente certa da sua virtude.
As declarações torpes de Louçã no debate com Paulo Portas não são um mero acaso ou uma infelicidade semântica são a verbalização das convicções do partido, assentes na superioridade moral em relação aos outros. O Bloco de Esquerda acredita convictamente que existe uma via única para a felicidade e que é ele a deter o mapa do caminho. Louçã, mais que empurrado, lá admitiu que as suas palavras deveriam ter sido "melhor contextualizadas". Mas em momento algum disse que errou ou se lembrou de pedir desculpa, o que para ele seria um rebaixamento intolerável, uma queda do pedestal. Esta gente não erra. Esta gente não falha. Esta gente não se engana. Ou seja: esta gente é perigosa.
João Miguel Tavares
jmtavares@dn.pt
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