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Pedro contra os poderosos

 

filipe santos costa

"Minhas amigas e meus amigos, para quem ia perder, isto não está nada mau". Com treze palavrinhas apenas, Pedro Santana Lopes tinha a sala na mão. O povo exultou, aplaudiu, descomprimiu, reconfortado por o líder os fazer rir com as dificuldades do partido. "Partimos em desvantagem", reconheceu o líder, mas logo lembrou que também Bush tinha a derrota prometida e venceu.

Os apoiantes que encheram o pavilhão do Incrível Almadense, na noite de quarta-feira, estavam no ponto de rebuçado mesmo antes de Santana subir ao palco, um vídeo lembrou ao povo as agruras do líder laranja, ao som de uma canção capaz de fazer chorar as pedras da calçada. "É triste ver este homem/ Guerreiro menino/ Com a barra do seu tempo/ Por sobre os seus ombros/ Eu vejo que ele berra/ Eu vejo que ele sangra/ A dor que traz no peito/ Pois ama e ama." No ecrã, Pedro de olhos rasos de lágrimas, Pedro com o povo, Pedro com os filhos, Pedro com alguns ministros, Pedro de mãos juntas apontando para o céu, e até imagens de Sá Carneiro.

Estava dado o tom Pedro, o homem dos afectos, falando aos seus com o coração a sangrar e a alma na voz. "Ponham-se no meu lugar", disse-lhes ele, enquanto relatava o que lhe fizeram durante os poucos meses em que governou. Foi como estar "dentro duma casa", com gente do lado de fora a "atirar pedras todos os dias" (metáfora que substituiu o célebre bébé na incubadora).

E quem atirou pedras? No comício de Almada, Pedro não falou de irmãos mais velhos, falou apenas dos "poderosos" (designação que engloba banqueiros e empresários), do Governador do Banco de Portugal e do Presidente da República, o atirador-mor de pedras.

"Pensam que tudo isto acontece por acaso?", questionou, sobre a dissolução do Parlamento. Pergunta retórica, porque já todos tinham percebido que não. Mas Santana insistiu nos pontos de interrogação "Qual foi o Governo que pela primeira vez disse à banca portuguesa: os senhores vão passar a pagar mais impostos?"

Banqueiros e empresários. O líder do PSD retomou, em força, a tese defendida por Paulo Portas logo que Sampaio anunciou a dissolução da Assembleia a culpa foi dos "grandes banqueiros e alguns empresários". E explicou: como se não bastassem os impostos, Bagão Félix admitiu levantar o sigilo bancário . "É evidente que houve quem tremesse". A vingança é um prato que se serve frio e Santana anunciou a ementa para quando ganhar as eleições: "A banca vai passar a pagar impostos, vamos mesmo criar as brigadas de elite contra a evasão e fraude fiscal".

"não dá pra ser feliz". A promessa ganhou contornos de vingança pós-eleitoral contra "os poderosos", que são complacentes com José Sócrates duma forma que nunca o foram com Santana. Os socialistas, disse o social-democrata, pagam na mesma moeda. "Foram eles que fizeram contratos com os tais poderosos" para as SCUTS, lembrou. "Eu não sou subserviente", garantiu Santana, fazendo o contraponto com o seu principal adversário, que se "deslumbra" e gosta de ser "simpático com os poderosos".

Para o fim, depois dos ataques a Sócrates, depois das queixas sobre Sampaio (que "foi líder do PS"), depois dos reparos sobre Vítor Constâncio (que também "foi líder do PS"), depois das bravatas contra os poderosos, Santana deixou o apelo ao voto, resumido numa palavra "Justiça". "Digo a todos os que votaram em nós em 2002 que pensem nesta palavra - justiça. É justo ou não é justo podermos continuar o trabalho que começámos? Será justo dizer: vocês fizeram o trabalho difícil, agora voltam os outros da vida airada?"

Era, de novo, o Pedro, olhos nos olhos, coração nas mãos. O Pedro da canção de campanha "Um homem se humilha/ Se castram seu sonho/ Seu sonho é sua vida/ E a vida é trabalho/ E sem o seu trabalho/ Um homem não tem honra/ E sem sua honra/ Se morre, se mata/ Não dá pra ser feliz."

Pedro desceu feliz do palco, mas, mal saía da sala, um colaborador segredou-lhe que tinha cometido a primeira gaffe da campanha ao acusar Sócrates de nomear um "boy" que tinha sido nomeado pelo PSD. "Não dá pra ser feliz".


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