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por
david mandim
O relógio marcava exactamente 20.00 quando Pôncio Monteiro recebeu uma chamada no telemóvel. Rodeado de jornalistas, na sua própria residência, no Porto, recebeu pela voz de Miguel Relvas a confirmação de que não iria ser o número dois do PSD pelas listas do Porto. A face enrubesceu e passou ao ataque. Rui Rio é acusado de ter pressionado para a sua exclusão e Santana Lopes é arrasado por ter permitido.
«Não tem para mim credibilidade nenhuma»; «quem não tem força para dominar o partido, não domina um governo»; «diz que tem as costas cheias de cicatrizes pelas facadas que lhe deram, mas ele não se coibiu de me dar uma facada», foram frases carregadas de emoção, dirigidas a Santana, que mereceram aplausos da mulher que o escutava atentamente com o filho.
Foi o final de um dia agitado para o economista portuense que desencadeou a polémica quando disse à RDP que não iria fazer campanha ao lado de Rui Rio. O autarca e vice do PSD é acusado de ter feito tudo para que o conhecido adepto do FC Porto saísse das listas. Terá actuado na sombra e, para Pôncio, «quando não se assumem não prestam». Garante que, em 2002, já tinha dito a Durão Barroso que não faria campanha com Rio.
O conhecido empresário portuense disse que só aceitou o lugar «após insistentes, mas mesmo insistentes», convites de Santana Lopes. «Disse-lhe logo que havia problemas pelo meio», contou ontem. Um deles seria Rui Rio, tendo ainda em conta que o cabeça-de-lista Aguiar-Branco era o homem de ligação de Rio com Santana. O presidente do PSD terá garantido que não iria haver problemas. «Disse- -me que isso não tinha nada a ver, que ele é que era o presidente do partido», recordou Pôncio.
O convite aceite na semana passada teve novo episódio, quando, dias depois, Santana Lopes tentou «mudar» Pôncio Monteiro para cabeça-de-lista em Vila Real, proposta que ontem se repetiu. Pôncio recusou sempre. «Santana Lopes disse que estava tudo bem na mes- ma», garantiu.
Na segunda-feira foi então o dia do volte-face, com as polémicas declarações. O DN noticiou ontem que Pôncio fora excluído e, durante a madrugada, o líder do PSD- -Porto, Marco António Costa, telefona-lhe, comunicando-lhe a situação. O candidato que deixava de o ser não ficou convencido e queria ouvir o «desconvite» da boca de quem o convidou Santana Lopes.
Durante a manhã de ontem, Pôncio esteve no Estádio do Dragão, numa cerimónia do clube que está no centro do polémica. «Isto só acontece porque sou defensor do FC Porto», assegurava aos jornalistas, após o almoço, nos intervalos dos inúmeros telefonemas que ia recebendo.
Foram três chamadas do próprio Santana Lopes e, à tarde, Pôncio ainda confiava «Quem me convidou, ainda não me desconvidou.» Fernando Seara, Miguel Rel- vas e Marco António Costa também falaram e convenceram Pôncio a esperar até à reunião da Comissão Política Nacional, em que Rui Rio não participou.
Depois, veio a confirmação. «Eu avisei-os. Eu não me calo», clamou Pôncio em sua casa, ressentido com a «facada» do amigo. «Pelos vistos, ele não tinha força para me convidar. Afinal, fez uma coisa para a qual não tem poder ou não lho dão», atacou, acusando ainda o primeiro-ministro de não ter dignidade ao empurrar a sua exclusão das listas para uma decisão da Comissão Política. «Para isso, não me vinha pedir como amigo que o ajudasse. Não é uma amizade honesta. Não me vou esquecer disto», desabafou.
Sempre a disparar, considerou mesmo que, «se calhar, isto foi bom para o País», assegurando que agora não irá fazer campanha. «Não vou fazer, vou esperar pelos grandes resultados dos grandes líderes do PSD. Vamos ver isso nas urnas», ironizou.
Ninguém das cúpulas do PSD é poupado e Santana, Relvas, Seara e Marco António são mesmo apelidados de «hipócritas» por terem alimentado «esta farsa». Revelou mesmo que nas conversas telefónicas «todos divulgaram o que pensam da actuação de Rui Rio», deixando a entender que não seria favorável.
E lembra que é afastado por ser do FC Porto, embora frise que «Rio já aceita que o primeiro-ministro venha homenagear o clube». Hoje, Santana Lopes estará no Estádio do Dragão, mas a recepção dos portistas já não preocupa Pôncio «Isso agora é um problema dele.»
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