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A manta de Salazar e a clandestinidade de Cunhal

por

António Pires de Lima

Gestor e deputado do CDS  

"Autoridade e liberdade são dois conceitos incompatíveis… Onde existe uma não pode existir a outra…"

"Salazar o homem e a sua obra"

Reza a história - não sei se inteiramente verdadeira - que sempre que recebia convidados à noite na residência oficial de Verão, o Dr. Salazar - fizesse frio ou calor -, tinha por hábito oferecer uma manta grossa para lhes cobrir as pernas. Houve um dia, porém, que um convidado mais ousado recusou a dita manta, argumentando que não fazia frio para tanto aquecimento. "Ponha, ponha…que pondo a manta, o frio chega logo a seguir", terá replicado Salazar.

Mais de 30 anos passados sobre o 25 de Abril, a manta de Salazar parece ainda cobrir as consciências e os costumes em Portugal, como se vivessemos todos em regime de liberdade condicionada. À esquerda e à direita, persiste uma insustentável desconfiança da iniciativa privada e um inexplicável temor à liberdade de escolha.

É longa a tradição autocrática à direita em Portugal, desde o absolutismo miguelista no século XIX ao consulado do Dr. Salazar, que durou metade do século XX. Que ordem de valores prevaleciam, nessas "direitas" de então? Deus, Pátria, Autoridade e a certeza de que "quem não é por nós é contra nós".

Na economia, condicionamento industrial, porque a concorrência é uma ameaça e não um estímulo.

O liberalismo nasceu em Portugal por oposição ao absolutismo e, ainda hoje, não é fácil encontrar um português de direita, educado no Estado Novo, que defenda valores liberais.

À esquerda, o amor à liberdade sempre foi muito apregoado e pouco praticado.

A esquerda da I República era profundamente intolerante. A do PREC abominava a liberdade. Melhor testemunho não nos podia deixar aquele que foi o exemplo de vida do Dr. Cunhal quem vive mais de trinta anos de democracia em desnecessária semiclandestinidade, não só não ama, como não sabe viver em liberdade. Quanto mais respeitar a dos outros…

Sobra a esquerda democrática continua hoje a refugiar-se em mitos e chavões politicamente correctos, para evitar o debate aberto em múltiplas frentes (segurança, estado social, etc.).

Socorre-se de um texto constitucional datado, que é em si mesmo um programa político, para limitar a margem de governação e a liberdade de escolha individual.

Portugal só dará o salto para uma sociedade moderna e de qualidade na medida em que a nossa democracia baseie os seus pilares na liberdade e na responsabilidade do indivíduo, tratando cada Pessoa como verdadeiro adulto e transferindo poder do Estado para os cidadãos. O Estado Social burocratizado que nos impõe a Constituição é profundamente irresponsável. Dar poder às pessoas e empresas é pô- -las a pagar os impostos estritamente indispensáveis à organização do Estado, porque é da acumulação de riqueza na esfera privada que advêm dinâmica social, maior poupança, bom investimento e desenvolvimento económico.

Trinta anos depois da Revolução, talvez não existisse maior homenagem que os democratas pudessem prestar ao 25 de Abril que reescreverem, sem preconceitos, a Constituição, para que esta possa garantir o bem que mais escasseia a liberdade de escolha, nomeadamente aos mais pobres, que são escravos das escolhas do Estado. A cada indivíduo, a cada família, deve corresponder o direito de escolha da escola, do hospital, do sistema de segurança social. Esse é o verdadeiro direito à educação, à saúde e à segurança social que urge defender.

Espero bem que, nestes tempos de ciclo socialista, a direita saiba encontrar um discurso que rompa preconceitos e lhe possa destinar um futuro interessante. Uma direita que ame a liberdade. Uma direita humanista, respeitadora do direito à diferença nas questões éticas, de moral e de costumes, que preze a dignidade de cada pessoa e respeite opções individuais. Uma direita que acredite na iniciativa, na concorrência e estimule a capacidade de empreender.

Em suma uma direita moderna e de marcada inspiração liberal. Portugal precisa de uma direita assim. Vamos fazer por isso?


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