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por
Ana marques gastão
A sombra não pode ser linearmente definida, sendo relativa no que diz respeito à luz e à figura. Talvez por isso tenha alimentado, ao longo da história da literatura, as mais diversas metáforas referentes à verdade, às trevas, à tristeza, ao terrífico, aos espíritos, à morte, à memória, à transfiguração. Do ponto de vista dialéctico, está associada aos princípios da separação, discernimento, diferenciação, localização espacial. Representa a silhueta, um duplo corpo.
Tem, portanto, um valor simbólico na literatura, em particular quando alcança, de forma onírica e miraculosa, autonomia, como em A História Fabulosa de Peter Schlemihl, de Adelbert von Chamisso (1781-1838). A narrativa, uma das mais célebres e misteriosas do romantismo alemão e recentemente dada à estampa pela Assírio & Alvim, conta com a tradução e ensaio de João Barrento, ficando a escolha de imagens a cargo de Lourdes Castro, que "depois de ter retirado as sombras da sombra, de lhes ter dado cor e transparência", estendeu--as, não deixando de as teatralizar na lentidão do movimento.
No rasto da novela, a artista, cuja obra dir-se-ia uma intensa e sensível pesquisa sobre a sombra, representa-a como quem procura o contorno da alma, nela encontrando não sinais de obscuridade, mas de luz, na revelação de um contorno clarividente, portador de angelismo. Na arte de Lourdes Castro persiste o segredo de uma eterna mobilidade e a sabedoria de que "tudo influencia tudo e nada está parado." O catálogo da bela exposição À Sombra (Prémio Celpa/Vieira da Silva, 2004) acaba também de ser publicado pela respectiva fundação e pela mesma editora.
Daí a curiosidade e o interesse desta edição que une o infeliz Schlemihl, sem alma de artista, no dizer de João Barrento, à criadora que confere à sombra um lugar tão estético como humano, no que a realidade tem de impalpável e fugitivo. E que faz a personagem desta história , que Thomas Mann apelidou de "novela fantástica"? Vende a sua sombra a um estranho, recebendo em troca uma bolsa com dinheiro. A riqueza não a faz, no entanto, feliz, conhecendo, em vez do apaziguamento, a rejeição de todos, tendo mesmo de renunciar àquela que ama, Mina. O Diabo - que contracena aqui com um fraco herói, não podendo, por isso, ser entendida a sua natureza como fáustica - consente em restituir-lhe a sombra, mas em troca da alma. Peter recusa, iniciando uma viagem expiatória com um par de botas, afinal as botas de sete léguas, com as quais percorrerá o mundo.
O tema tratado por Chamisso, naturalista e poeta com a predilecção pelo macabro, originou diversas interpretações em torno do homem que observou o levantar da da sua sombra da relva, vendo-a ser enrolada, dobrada e metida na algibeira.
João Barrento refere, no seu belo ensaio, que a história talvez tivesse sido outra se o autor pudesse ter lido o Elogio da Sombra, de Tanizaki - que defende o colocar na sombra o demasiado visível e o despojamento do ornamento supérfluo -, para nos dizer que é necessário integrar a narrativa não apenas do ponto de vista moral, social ou teológico, mas estético. Plínio, o Velho, sublinha, aliás, que a pintura nasceu quando a sombra humana foi circunscrita pela primeira vez a uma linha.
Tem-se associado a sombra de Peter Schlemihl ao lado da "felicidade burguesa", à pátria, à interrogação sobre a questão existencial, à identidade, à transfiguração do real, à memória, à aceitação do inconsciente... Porque não ligá-la à aura, no sentido benjaminiano, como exercício de paixão? Qualquer que seja a interpretação em seu torno, o lado encantatório da novela, cujo enredo detém uma unidade profunda, exterior à lógica, passa, decerto, pelo enigma,
A História Fabulosa...
Autor. Adelbert von Chamisso
Editora. Assírio & Alvim
Páginas. 140
Género. Ficção
Preço. 13,00
Classificação.
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