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Ou se fazem mais esporões ou se aceita a erosão

por

Luís Miguel Viana  

Qual é a principal causa de erosão na costa portuguesa?

É sem dúvida, no meu entendi-mento, o défice de alimentação sedimentar com origem nos rios. Os rios, quando não tinham barragens, transportavam até ao mar a areia resultante da erosão nas bacias hidrográficas. Mas as barragens, para além de reterem a água, também retêm sedimentos. E estes, que antigamente alimentavam as praias, agora ficam nas albufeiras - com a agravante de, em alguns locais, os sedimentos que existem nos leitos dos rios serem extraídos para a construção civil. Ora, se nas praias as ondas têm menos areia para transportar, removem a que lá está.

As alterações climáticas não jogam aqui um papel?

O clima muda, mas, à escala de cem anos, não muda muito! Não é aí que se encontra a explicação dos nossos problemas. Há factores fundamentais, factores secundários e factores secundaríssimos - e esse é secundaríssimo. As ondas poderão ser diferentes de há 50 anos, mas será uma diferença mínima.

Não é daí que vem o desequilíbrio?

Diminuiu muito a compensação que se fazia, predominantemen- te, no sentido norte-sul ao longo da costa oeste. A somar à falta dessa alimentação houve a construção de grandes obras portuárias sobre a costa, grandes molhes. Refira-se que os portos de Lisboa, Douro ou Setúbal não tiveram influência nenhuma, porque são portos interiores - os problemas são os molhes atlânticos que se construíram nos últimos 50 anos por toda a parte Viana do Castelo, Póvoa de Varzim, Leixões (final do século XIX), Aveiro, Figueira da Foz, Ericeira, um pouco a marina de Cascais... Para sul, Sesimbra é um caso particular, em Sines já havia uma barreira natural, o cabo de Sines. Indo para o Algarve, no Barlavento (Lagos, Praia da Rocha), o sentido dominante do transporte é de poente para nascente.

Qual é no Algarve a principal barreira?

Os molhes de Vilamoura. Criaram mais uma barreira física, análoga às de Leixões, Aveiro, Figueira da Foz retêm a areia a poente, com a consequência óbvia de, a nascente, faltar o caudal sólido que mantinha o equilíbrio.

Foi por isso que se construíram os esporões na Quarteira? Mas se estes contêm ali o mar, não agravam o problema mais à frente?

Exactamente, o problema repete- -se. E só há duas soluções ou fazer mais esporões ou, então, o homem fazer aquilo que a natureza já não faz - pôr areia na praia.

Tirando-a de onde?

De onde a houver (risos). Aí é que está o problema onde a ir buscar; e a que preço.

A dimensão do problema no Algarve e no Oeste são comparáveis?

Na costa oeste o fenómeno tem uma envergadura muito maior! Ela é beneficiária de rios de grande dimensão já nem falo do Mondego, mas do Douro ou do Minho, que têm - ou tiveram - nas suas enormes bacias uma grande capacidade de produção de sedimentos. Ora, no Algarve, há só uns riozinhos: o Arade, o Bensafrim em Lagos, a ribeira de Odelouca...

... tem o Guadiana com uma grande capacidade, mas, se a dinâmica é poente-nascente, toda a areia vai para a costa de Espanha...

... Ora aí está! O Guadiana não beneficia a nossa costa. Mas voltando ao confronto como a costa oeste era alimentada por rios de grande capacidade e agora já não é, o défice é muito superior. Na costa algarvia o défice é da ordem das dezenas de milhares de metros cúbicos por ano; na costa oeste é das muitas centenas de milhares!

A força das ondas joga aí algum papel?

Também joga. No Algarve o transporte é menor porque há menos para transportar e porque a capacidade de transporte das ondas é menor. Ora, é muito mais fácil compensar esse défice com areia posta na praia do que na costa oeste no Oeste, mesmo que haja dinheiro (e seria preciso muito) e vontade política, onde é que vamos buscar a areia? No Douro, por exemplo, a areia está retida, aos bochechos, por imensas barragem; não faz sentido ir buscar areia a Aldeadávila para despejar na foz do Douro...

A situação é grave?

É, na medida em que é irreversível. A não ser que deitássemos as nossas barragens abaixo. Mas, depois, ainda era preciso declarar guerra aos espanhóis; e, admitindo que ganhávamos, deitar abaixo as barragens deles (risos). Está a ver que não é fácil...

O que é que podemos fazer?

Na costa sul, podemos fazer alimentação sedimentar - alimentar as praias com areia todos os anos, ou de tantos em tantos anos. Isso já foi feito em Vale do Lobo.

Onde é que se pode ir buscar a areia?

Com sedimentos a ir buscar ao largo, por exemplo. Ir ali um quilómetro em frente, com umas dragas, tirar areia a uns trinta metros de profundidade, ou coisa no género. De-vo dizer que não acho esta a melhor solução, porque essa areia é muito mais fina e facilmente removível pelo mar.

É mais favorável aos esporões?

Os esporões não são solução para os problemas a sotamar, mas resolvem-nos na sua área de influência. Portanto, a solução é ir construindo mais esporões. Ou, então, aceitar as consequências da erosão.

O senhor projectou as obras de Espinho. Está satisfeito?

Foi um êxito, sinto-me muito feliz com o resultado. Antes daquelas obras, Espinho não tinha praia nenhuma, as ondas batiam contra a defesa longitudinal e, no Inverno, saltavam a marginal e atingiam as fachadas dos prédios. Agora está lá uma bela praia.


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