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No princípio era a manipulação

 

Ocabo tem um horário específico que não se integra em nenhuma divisão habitual do dia televisivo. Não é o horário nobre, mas sim o horário dos asteróides, do carbono 14 e dos mistérios geológicos em geral. Entrei assim, madrugada alta, num documentário do Discovery onde uma equipa de geólogos investigava a Falha de Santo André, na Califórnia, com aquela poética que é exclusiva dos geólogos e que consiste em apontar para um pedaço de terra, como noutros tempos os repórteres do Correio da Manhã indicavam o local do crime e começar a explicar uma data de coisas que aconteceram há milhares ou milhões de anos.

Desta vez havia mais do que mistérios da geologia para decifrar. O tema do programa era o sismo de São Francisco, em 1906. As datações geológicas assinalavam a existência cíclica de sismos na região, nos dois últimos milénios. E o consequente risco de novos terramotos na região. A imagem extraordinária era a do percurso da falha, a poucos quilómetros da cidade.

Mas, neste documentário, os movimentos das placas tectónicas eram a chave para determinar não apenas a violência do sismo mas também uma fraude mediática do princípio do século. Ou seja, os poderes da cidade procuraram minimizar o impacte público da tragédia. Aldrabaram notícias, falsificaram balanços de vítimas e, sobre- tudo, traficaram fotografias. E este era o aspecto interessante do documentário. Décadas antes do Photoshop e da fotografia digital, alguém se preocupou em transformar imagens de prédios destruídos ou de ruas cheias de destroços. Não existia televisão, nem rádio e as notícias eram dadas pela imprensa, com dias de atraso. Mesmo assim, e como o documentário sublinhava, o sismo de São Francisco foi um acontecimento mediático, à escala daquela época.

Habituámo-nos a associar a manipulação da informação a práticas mais recentes, como a célebre remoção de dirigentes caídos em desgraça na velha União Soviética. Mas a manipulação da fotografia existiu sempre, numa medida muito mais trivial. No caso de São Francisco, as fotografias foram transformadas nos laboratórios fotográficos da cidade por funcionários especializados em retocar e remover imperfeições dos retratos.

A ideia de que a fotografia fez um corte com o passado por mostrar o instante, o acontecimento, tal qual ele se oferecia à câmara fotográfica. Era a "prova histórica da realidade" de que falava Benjamin. Na verdade, esse poder da imagem esteve sempre sob suspeita. A era da televisão pode ter muitos defeitos mas pelo menos não detém o privilégio exclusivo da manipulação da realidade pela imagem. Isso já a imprensa fazia. Em 1906.

A imprensa instituiu a manipulação da imagem muito antes da televisão

Miguel Gaspar

e-mail

miguel.gaspar@dn.pt


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