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A. r.
"Dias da Cunha cometeu um erro estratégico brutal quando se aliou a Luís Filipe Vieira e a José Veiga para regenerar o futebol português, não percebendo que isso só ajudava o Benfica a controlar a Liga e o Conselho de Arbitragem, aproveitando o vazio criado pela operação 'Apito Dourado'. O Sporting caiu na ratoeira e os resultados estão à vista."
Duas semanas depois de ter terminado uma época razoavelmente frustrante para a maioria dos adeptos leoninos, esta é a principal crítica que, neste momento, se ouve entre os "notáveis" do Sporting, sem que alguém dê a cara. Mas o clube e os adeptos leoninos poderão ser já hoje confrontados com algumas demissões. A começar por Felipe Soares Franco, admitindo-se que essa decisão possa arrastar outras pessoas.
"Dias da Cunha está cada vez mais teimoso e mais autista. Só ouve as pessoas que o rodeiam funcionários que vivem à custa do Sporting. É preciso travar isto: ou se nomeia um novo presidente para a SAD [futebol] ou, então, terá de haver eleições antecipadas, porque isto não pode continuar. Houve erros atrás de erros, e alguns podem repetir-se. E não se deve partir uma equipa que não ganhou nada, mas que esteve à beira do paraíso."
Uma ideia partilhada por outros dirigentes ou antigos dirigentes do clube, para quem o Sporting pode estar à beira de uma catástrofe, susceptível de pôr em causa o chamado Projecto Roquette. "Basta que a equipa perca dois ou três jogos seguidos no início da próxima época e temos o caos instalado, abrindo as portas do clube a um aventureiro. É preciso recuperar a alma sportinguista e deixar de falar de jogadores como activos."
Degradação. No centro de todas as críticas está a gestão do departamento de futebol do clube, que provocou já a demissão do director-geral da SAD, Carlos Freitas, sem que Dias da Cunha tenha retirado as devidas ilações. Designadamente sobre a forma como o ambiente se degradou em torno de treinadores e jogadores desde a saída de José Eduardo Bettencourt, substituído por Paulo Andrade no início da época 2004/2005. Reflexo disso é também a saída de Rita Côrrea Figueira, uma das principais juristas do clube.
Duas demissões que fizeram soar todas as campainhas de alarme e que colocam Paulo Andrade e José Peseiro na berlinda.
"Paulo Andrade entrou muito mal e comportou-se sempre como um elefante numa loja de porcelana foi arrogante, subverteu a cadeia hierárquica, criou conflitos com toda a gente e incompatibilizou-se com Carlos Freitas. Mas o pior é que nunca deu a cara nos mais difíceis. Sobretudo, pelos jogadores, e isso é imperdoável."
Uma atitude sublinhada por várias fontes consultadas pelo DN, para quem Paulo Andrade cometeu o único pecado que não lhe era permitido. "Consegue-se fazer tudo de um jogador de futebol, desde que se seja sempre verdadeiro e que se dê a cara por ele nos momentos difíceis. Dar a cara por um jogador é absolutamente essencial. Mas não pode ser uma pessoa qualquer. Não podia ser o Carlos Freitas, o Manolo Vidal ou o Eurico Gomes. Tinha de ser um administrador, tinha de ser alguém que mandasse. E nem Paulo Andrade, nem Dias da Cunha perceberam isso."
Saída. Daí que a demissão do director-geral da SAD não tenha surpreendido ninguém que estivesse atento à realidade sportinguista. Freitas já pouco falava com Dias da Cunha ou com Paulo Andrade. E como o responsável pelo futebol leonino também não circulava muito entre os jogadores, o mais provável é que a informação nunca tenha fluído. Uma acusação que também abrange José Peseiro. "É um excelente profissional, muito metódico e muito trabalhador, mas que ainda está em fase de formação. E, em certos momentos, isso foi-lhe fatal. Ou porque não percebeu que tinha de agir ou porque não houve quem lhe tivesse explicado o que tinha de fazer."
Como sucedeu com Fábio Rochemback. Substituído num jogo, o médio brasileiro não gostou e mandou Peseiro "levar no cú". Sem que o treinador tivesse reagido.
Com excepção da multa aplicada pela SAD, Rochemback não sofreu qualquer castigo e ainda foi titular no jogo seguinte. "Quando devia ter sido suspenso por um mês ou dois."
omissões. Com esta omissão, José Peseiro terá perdido o balneário. "Já repararam que o Liedson nunca deu problemas ao Fernando Santos? Marcou menos golos, mas nunca criou problemas. E será que alguém consegue perceber o que se passa com o Polga? Ao longo de dois anos, foi sempre um profissional irrepreensível, fiável e consciente. O que é que o terá levado a dizer ao treinador que não queria jogar contra o Nacional?"
Perguntas sem resposta que, talvez, ajudem a explicar a agitação que os leões vivem neste defeso ou a forma como o Sporting parece querer ver-se livre de alguns jogadores, sem que se perceba quem é que serão os seus substitutos. Num momento em que o Sporting deixou de contar com a colaboração de Carlos Freitas, o gestor de todos os "activos" leoninos desde 1999, suscitando novas reflexões.
"Se não fossem o Pedro Barbosa, o Rui Jorge e o Sá Pinto, aquilo tinha rebentado tudo. A começar pelo treinador. Eles é que andaram a acalmar o ambiente. Foi por isso que o Sá Pinto 'roubou' o penalty ao Liedson. Com esse gesto, Sá Pinto quis mostrar quem é que mandava. E mostrou. Sem que o treinador se envolvesse. Até porque, nessa altura, Sá Pinto, Rui Jorge e Pedro Barbosa também já estavam um bocadinho fartos de andar sempre com o Liedson ao colo, porque ele só pensava em ir ao Brasil ver se a mulher estava bem, se a criança já tinha nascido ou se não havia mais nenhum problema com a família."
Quem conhece o balneário leonino admite, contudo, que Peseiro possa ter tido, no entanto, alguma atenuante. "Se calhar, não o deixaram agir. Se calhar, explicaram- -lhe que o Rochemback era um activo importante e que o Sporting não podia arriscar-se a perdê-lo, não sei. O que sei é que deviam ter castigado o jogador. Mas a cultura que, neste momento, está instalada não o permite. Vigora a total impunidade. Ainda há dias, um desses jovens 'activos', como agora se diz, insultou o Hilário na Academia e não aconteceu nada. O que vale é que Pedro Barbosa, Sá Pinto e Rui Jorge resolveram agir. Chegaram ao pé do miúdo, explicaram-lhe quem era o Hilário - que para eles era o Senhor Hilário - e no fim deram-lhe uns sopapos. Talvez tenha aprendido, não sei. Por isso é que me impressiona a forma como as referências do clube são tratadas. Por mim, estou convencido que o Sá Pinto só não foi posto na rua porque a actual nomenclatura temeu a reacção da Juventude Leonina."
Conjunturas à parte, o facto é que a maioria das fontes consultadas pelo DN concorda com a importância da manutenção de referências nos clubes. "Veja-se o caso do Maldini, que tem 37 anos, e continua no Milão, ou do Jorge Costa no FC Porto. Um clube tem de ter uma identidade própria e precisa de quem transmita tais regras e sirva de exemplo aos mais novos e aos que acabaram de chegar."
Acusações. Uma premissa da qual nem Dias Cunha, nem Paulo Andrade parecem ter partido na sua abordagem ao futebol do Sporting, criando disfunções que levaram às demissões de Carlos Freitas e de Rita Côrrea Figueira, duas peças de um puzzle onde também se encaixam as saídas de José Eduardo Bettencourt e de Miguel Ribeiro Teles, ainda que em momentos anteriores.
"Dias da Cunha só ouve os elementos da comissão executiva ad--hoc Paulo Andrade, Pedro Afra, José Goulão, Armando Santos, Pedro Batalha Ribeiro e Rui Meireles". Os tais yes-men que todos os 'notáveis' mencionam, acrescentando ainda os nomes de dois assessores de imprensa: Maurício do Vale e Carlos Severino.
Um conjunto de pessoas que concentra, neste momento, todos os ódios dos bastidores do poder em Alvalade, onde parecem proliferar cargos e empresas. "É uma vergonha. Em parte, foi por isso que José Eduardo Bettencourt saiu. E se calhar, o Sporting perdeu aquele que poderia ser, com mais dois ou três anos de experiência, um Peter Kenyon português. Mas quando ele percebeu que só a SAD é que tinha feito cortes orçamentais e que o resto do universo do Sporting continuava por reestruturar, perdeu a paciência e foi-se embora. Só depois da sua saída é que os bancos se aperceberam da situação. Mas ainda há muitos administradores, directores-gerais e assessores."
Foi também por isso que Carlos Freitas bateu com a porta, criando uma situação com contornos imprevisíveis. "Ele era essencial para a estrutura do clube. Quanto mais não seja para evitar que cada novo treinador trouxesse seis, sete ou oito novos jogadores. Além disso, era competentíssmo."
'troika'. Uma forma de identificar o principal responsável pelas contratações de jogadores, como André Cruz, Babb, César Prates, Liedson, Polga, Douala, Pinilla e Enakarhire, entre outros. Sobra uma "mancha" chamada Rodrigo Tello. Mais pelo valor pago pelo chileno, do que pelas suas qualidades futebolísticas. O que a maioria dos adeptos não sabe, no entanto, é que parte substancial da transferência do jogador para o Sporting, serviu para "disfarçar" a indemnização que foi paga a José Mourinho. Quando ele deixou o Benfica, e se preparava para entrar no Sporting. Pela mão de Luís Duque.
E agora, quem é que vai escolher os reforços para a nova época? Aparentemente, será uma troika formada por Paulo Andrade, José Peseiro e Rui Meireles, um dos responsáveis pelas finanças da SAD. "O problema é que eles não têm contactos. Isso significa, na prática, que vai ser o treinador a decidir quem entra e quem sai do plantel. E, ao fazê-lo, já se ofereceu como bode expiatório do que vier a correr mal na próxima época."
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