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armando rafael
"Só faz falta quem cá está." Esta parece ser a nova palavra de ordem do Sporting, servindo para justificar todas as demissões ou saídas do clube. Quer de funcionários, quer de jogadores ou até de dirigentes. "Qual é o problema? Já sairam José Roquete, Luís Duque, Miguel Ribeiro Teles e José Eduardo Bettencourt. Qual é o drama se Felipe Soares Franco também decidir sair?"
Lançada por Dias da Cunha, que acumula as presidências do Sporting Clube de Portugal com a da SAD que gere todo o futebol, e já repetida por José Peseiro, o treinador que esteve à beira de vencer um campeonato e uma Taça UEFA, falhando os dois objectivos, a frase ganhou uma nova conotação nos últimos dias, indiciando que a actual estrutura directiva dos leões decidiu arrumar a sua casa. Doa a quem doer, custe o que custar. Mesmo que isso possa levar ao afastamento de jogadores como Pedro Barbosa, ou à transferência de Beto, Ricardo, Polga, Liedson e Douala, já para não falar de Hugo Viana, que poderá seguir o caminho de Simão e Quaresma, que hoje jogam no Benfica e no Porto.
Sem que isso pareça preocupar Dias da Cunha, que continua a confiar em Paulo Andrade para gerir o futebol do Sporting, insistindo numa linha de continuidade e numa estratégia que há muito está definida, apesar de já ter sido interpretada por diferentes protagonistas a base essencial de recrutamento da equipa do Sporting é a Academia e assim deverá continuar.
De forma a que a equipa possa ter, um dia, 60% ou 70% dos seus jogadores formados nas escolas do clube, como era referido n' A Bola.
Um argumento que ajuda a perceber a manutenção de Paulo Andrade, "que também foi obrigado a engolir muitos sapos ao longo da época passada, e que foi a pessoa que melhor rentabilizou a Academia. Tanto do ponto de vista desportivo, como comercial."
Razão pela qual, Dias da Cunha garante que as suas decisões são sempre tomadas, tendo "os interesses do Sporting em primeiro lugar."
O que explica também as razões da continuidade de Peseiro, o treinador que o Sporting foi buscar à equipa que Carlos Queiróz tinha levado para o Real Madrid. "Nunca houve uma relação tão boa como agora existe entre os escalões de formação e a equipa principal. E essa sempre foi sempre a lógica fundamental do chamado Projecto Roquete a Academia devia ser a principal base de recrutamento de novos jogadores. E é assim que vamos continuar, sem que isso não nos impeça, como nunca nos impediu, de ir contratar alguém fora, quando se justificasse ou quando fosse necessário. Basta ver o que aconteceu com o Jardel ou com o Liedson."
Uma garantia já repetida também por Dias da Cunha, para quem o Sporting não deixará de ter uma equipa de futebol competitiva na próxima época, apesar de todos os constrangimentos financeiros existentes, e que levam os leões a dispor de um orçamento que é, sensivelmente, metade do Porto e bastante inferior ao do Benfica.
"É verdade que temos grandes constrangimentos financeiros. Mas também é verdade que o Sporting paga tudo o que tem a pagar, fazendo um esforço enorme para diminuir o passivo, enquanto isso não sucede no Porto, nem no Benfica. Por isso é que o presidente do Sporting tem insistido tanto na adopção de regras especiais para a contabilidade dos clubes em Portugal. De forma a tornar tudo mais transparente e, sobretudo, mais comparável. Caso contrário, os clubes continuarão a viver na ilegalidade. Sabe- -se lá com que dinheiros."
Uma batalha que passa também pela profissionalização dos árbitros, ou pela distinção entre quem os nomeia e quem os classifica, ou até pela denúncia de todas as suspeitas de corrupção que envolvem as arbitragens em Portugal e que já levaram Dias da Cunha e Dias Ferreira a serem - discretamente - ouvidos pela PJ. Sem que se conheçam os resultados da diligência.
Quanto ao progressivo isolamento de Dias da Cunha, a quem ninguém parece regatear elogios pelo empenho que tem sido posto na reestruturação financeira do Sporting, as mesmas fontes são unânimes "Só se está falar nisso porque não ganhámos o campeonato, nem a Taça UEFA. Se tivéssemos ganho, ninguém falava nisso."
Irresistível neste momento, é também a comparação com o seu antecessor, José Roquete. "São feitios muito diferentes. Quando Roquete, tinha de tomar uma decisão, chamava 10 ou 12 pessoas. Dias da Cunha já não faz isso. Mas também passa mais tempo em Alvalade do que Roquete. E já avalizou pessoalmente, como Felipe Soares Franco, muitos empréstimos ao Sporting, o que nunca sucedeu com o Roquete. Por isso, também é natural que ele se irrite com comentários ou declarações proferidas por quem o que se passa dentro do clube."
Uma opinião partilhada com quem entende que o Sporting entrou em velocidade-cruzeiro no que respeita à establidade das suas finanças. "Se o buziness-plan for cumprido, não haverá problemas."
Mesmo que passivo do clube se situe, neste momento, um pouco acima dos 300 milhões de euros, garantindo, ainda assim, que o Sporting tenha uma credibilidade muito diferente da maioria dos clubes nacionais que têm despesas muito acima das suas receitas (entre 20% a 30%), o que os coloca num plano de pré-falência ou de enorme fragilidade perante especuladores.
Talvez, por isso, já se fale em candidaturas para 2006, e na sucessão de Dias da Cunha. "Há uma luta pelo poder, e as pessoas começaram a posicionar-se, numa altura em que o Sporting está a deixar de ser um clube tradicional para passar a ser uma entidade que gere o maior espectáculo do mundo, que é o futebol."
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