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"Fascistas no Campo Pequeno" e a caça aos patos em Fermentelos

 

Algumas das mais divertidas "trocas de galhardetes" ocorridas na Assembleia Constituinte tiveram como protagonistas dois deputados situados em ambos os extremos do hemiciclo Galvão de Melo, eleito como independente pelo CDS, e Américo Duarte, a solitária voz da UDP.

O primeiro round ocorreu a 13 de Agosto de 1975, com uma intervenção de Galvão de Melo

"Já por diversas vezes o nosso distintíssimo colega Sr. Américo Duarte aqui proferiu críticas pessoais, visando directamente deputados de todos os restantes partidos e eu próprio. (...) Estes 'ataques', que o nosso distintíssimo colega não pensou nem escreveu e tão-somente nos leu o melhor que pôde (risos), só não são insultantes por virem de quem vem; só não são insultantes porque aquele que os proferiu é o primeiro a não compreender (risos)."

Na sequência, o deputado do CDS requereu ao presidente da Mesa que usasse "todos os seus meios" para esclarecer se Américo Duarte "foi ou não informador da PIDE". E sublinhou "De facto, possui o Sr. Américo Duarte duas características que, bem aproveitadas, teriam feito de si um informador por excelência de qualquer polícia política: obediência de autómato e ousadia em declarar o que não sabe."

Gerou-se enorme burburinho no hemiciclo. A Mesa da Assembleia Constituinte viria a remeter o requerimento à Comissão de Extinção da PIDE.

Américo Duarte levantou-se então para ler a seguinte declaração de protesto e de alerta

"O Sr. Galvão de Melo acabou de lançar uma provocação ao povo português. (risos) Esse senhor faz um requerimento atacando a posição da UDP, representada nesta assembleia, lançando provocações e calúnias que não são tomadas por uma afronta pessoal, mas a tentativa de uma provocação generalizada às massas populares. (...) O Sr. Galvão de Melo está disposto a passar das palavras aos actos, ou seja, ser a cabeça e o corpo de um novo golpe fascista, como afirmou a um jornal espanhol. Daqui alertamos as massas populares para estarem vigilantes e unidas."

Galvão de Melo pede de novo a palavra e começa a falar. Américo Duarte abandona a sala, gritando--lhe "Hás-de ir parar ao Campo Pequeno!"

A 19 de Agosto vem a confirmação o deputado da UDP nunca fora informador da PIDE. Américo Duarte propõe então à mesa que ponha "imediatamente à votação a expulsão do fascista Galvão de Melo". Face à rejeição do requerimento, Duarte grita: "Fora o fascista do Galvão de Melo!" E logo a seguir: "A mesa é fascista!"

Novo round a 19 de Agosto. Américo Duarte refere que três dias antes Galvão de Melo estaria a "bronzear-se numa piscina", enquanto manteria uma conversa suspeita com o comandante do Regimento de Comandos, coronel Jaime Neves. Resposta do general "Nesse dia eu estive no Norte do País, em Fermentelos, à caça aos patos. Patos com asas, patos autênticos."


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